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Pé-ante-pé nos chegam as palavras carreando as nossas necessidades habituais: o blues que nos melancoliza, o jazz que nos inventa em notas ligeiras; o mistério que nos assusta e a história que nos traduz; o espanto de construirmos no agreste da própria pele a estrada rudimentar do tempo que, escavada com ponteiros de ferro e pás-de-cal, terraplanada com idas longas e números secos, compactada com pisadas rudes de pés rotos e, por fim, pavimentada com uma camada de cristal de fino trato por onde, soberana, a memória nos trará o futuro, um delicado e frágil futuro de nome Presente.

Pé-ante-pé vieram nos versos todas as personas que os Mitos, e os Adestradores de Dor, inventaram para nos criar: nossos protótipos de ridículo, nossos arquétipos de sofrimento, nossos modelos de paixão, nossas amostras de pueril, padrões de tolices, exemplos de amor, veículos e mais veículos de desprendimentos e entregas, moldes de humano em todas as suas variações sobre um tema trivial: Vida!

Faltava algo!



Dedos-ante-dedos vieram veludo e verve, espinho e rosa, algum cão, dois lobos, alguns deuses vazios, um universo em expansão, um lápis pênsil no vácuo, tal Espada de Dâmocles, depois, foi preciso que, mãos-ante-mãos, uma mulher aberta e plena em todas as suas contradições, Claudia Manzolillo, viesse para nos trazer esse tudo que faltava, a essência, o todo em que tudo se completa: a Alma!

E aqui e assim, entre carnes de bocas sôfregas, Morada dos Corações, e Mundos de Sinapses Submersas,  Albergue  das  Razões,  nasceu e deu-se  por vaidade  e  depois  se  doou  por compulsão, a sensível e fantástica gênese da Poesia da Poeta Claudia Manzolillo.

  Wander Porto
*

Pássara

Naquele céu, dançava como podia.
Se a noite pedia um blues
Garganta de pássaro
Alma fluida
Esparzia sons
Pele eriçada
Jazz nos ouvidos
da lua.

Claudia Manzolillo

*

LIVRA-ME

Livra-me
das obstinadas
ideias
dos pratos
feitos
das odes
aos narcisos
das obtusas
opiniões
acerca de
tudo.

Livra-me
do que
me subtrai
e assim
desescreve
a minha
história.

Subo as
escadas
da estante
lá em cima
o mistério
encapado.

Minha sina
desde menina
é abri-lo:
permita-me
entrar
e me
encantar.

Claudia Manzolillo

*

MAPA HUMANO

venho observando
novos rios nascendo
entre veias e nervos

tal qual o chão agreste
se insinuam as gretas
tomam conta da pele
fazendo o caminho

é longa a estrada
mas sempre há
sinais do tempo
de voltar.

Claudia Manzolillo

*

Arte Luiza Maciel Nogueira

DRUMMOND REVISITADO

Reaberto o livro,
releio o poema:
eis que
permaneceu
incorruptível
em sua beleza
e mistério.

Olhares
se debruçavam
sobre o papel.
Buscavam
respostas
para a vida
iniciada.

A palavra
se mostrava
amiga
e fugidia,
por isso
instigante
à luta diária.

Memória
em dissipação?
Não.
Revisitar
as páginas
com olhos
de viajante
em terras
já pisadas.

O poema, lá,
em sua inteireza,
íntegro,
contempla
os homens
esfacelados
em seu ansioso
consumir-se,
reduzidos
a pó,
conduzidos
a perder
a humanidade,
condenados
a palavras ocas.

Procuro o poema
de sempre
que me consola
da flor perdida
na página antiga.

Ei-lo
à minha espera
como um corpo
aguarda sua alma.

Claudia Manzolillo

Arte Luiza Maciel Nogueira

*

PRIMAVERA

Colhamos as flores
enquanto existimos
ou enquanto as flores
se oferecerem a nós.

Colhamos, com gentileza,
para não as magoar.
Feridas, mesmo assim,
perfumam nossas mãos
capazes de arrancá-las
de seus caules.

Colhamos a primavera
enquanto ela se espalha
nos campos
na alma que teima
em esperar por esse tempo.

Colhamos, sem pensar,
o que é belo e efêmero,
pois o eterno
nessa colheita
é o que torna
vivo o momento
da flor.

Claudia Manzolillo

*

QUASE

Vivo me ferindo
no quase.
Fio de arame
que me bate
e me lanha.
Mas me banho
e as águas
cicatrizam
os lanhos.

Pele ferida
nos atritos
sente frio,
arrepios.
O mar
singrou
a carne,
salgou-a,
banhou-a.

Vivo me ferindo
nas cercas.
Passo por baixo,
quase me escapo.
Vivo me ferindo
por dentro.
Mas não canso.

Lambo a ferida,
cultivo a casca
e aplaudo a cicatriz.

Claudia Manzolillo

*

SE MINH’ALMA ESTÁ EM REVOLUÇÃO

Se minh’alma
está em revolução,
queixo-me às musas,
queixo-me ao vento,
e nesse queixume
me aquieto.

Conluio, revolta,
o que tramam
os deuses interiores?
Caloresde um estio
passadoe ainda em brasa?

Queixo-me ao mar,
lamento vago
como as marés.
Eis-me aqui,
vaga onda,
concha vazia.

Clamo aos céus
singro e sangro
nesses mares.

Alma náufraga,
segura o leme
da nave e ancora
na praia do infinito.

Claudia Manzolillo

*

ESSA OUTRA

Enquanto saí de mim,
a outra que me espreita
sentou-se no meu sofá
e leu o que havia
na estante.
De fato, apropriou-se
Do que sou
e folheou
o que em tinta e dor
gravei nas páginas
diárias.
Essa outra
anda pela rua
vislumbra a lua
se doura no sol
sacode o mofo
e me leva a passear.
Náufrago ou sobrevivente,
chamuscada, amassada,
quando essa outra
me toma pela mão,
habito outra vestimenta
e me disfarço de feliz.
Não sei quando essa outra
chegou.
E me pergunto:
é essa outra que me habita
ou não terei sido eu o disfarce
que essa outra usa
para ser em mim?

Claudia Manzolillo

*

SABE-SE LÁ?

de onde se origina a cicatriz
que até hoje lateja
no calcanhar de Aquiles?

a maçã que no pomo
de Adão ficou
a meio do caminho?

o nariz adunco dantesco que,
desobediente às leis da física,
fraturou-se sem acidentar-se,
de onde virá?

a corcova que faz o sineiro
deNotre-Dame deitar-se
como se sabe e sabe-se lá?

odesver camoniano que a tudo
vê em sua lira platônica;
até mesmo o desconcerto do mundo?

os dedos carcomidos esculpidos
em madeira e pedra e dores
sabe-se lá por que assim?

de quantos náufragos negros
manchou-se a água oceânica
que não há tempo nem substância
que limpem esse horror
sabe-se lá?

Claudia Manzolillo

*

BUCÓLICA

Em que leitos
deito meu corpo,
afeito a afetos e carícias?
O corpo,
refeito do susto da noite,
engole o dia,
se engolfa na tarde
e mergulha na noite
para sempre nostálgica.

Sem sonhos ou pesadelos,
ela seria mais leve.
Sem sobressaltos,
seria um sono de anjo,
de deuses do Olimpo,
de ninfas silvestres.

Nos campos,
um leito de folhas,
inusitado dossel
de heras celestiais.

Desfeitos outros leitos,
pacífica, procuro
o feno, a palha, a folha.
Refaço a cama,
preparo o corpo,
óleo e sândalo,
fogo e mar.

Desfeito o laço,
armo outro bote,
pretendo outro abraço.
Se navego,
aderno ou aporto,
não sei.
E, por não saber,
apronto meu corpo,
enfeito meu leito
de pássaros e flores,
despojo-me,
decoro
meus jardins interiores.

Claudia Manzolillo

*

O MAR EM MIM

Areia clara
meu passo forma rastros
na superfície morna.

Concha vazia
minha voz antiga
ainda nela ressoa.

Coral quebrado
meu coração exposto
à luz do sol sem cerimônia.

Mar solitário
meu pranto recolhido gota a gota
inundado de sal e silêncios.

Claudia Manzolillo

*

CLAUDIA MANZOLILLO, A DONA DAS PALAVRAS

Pode até parecer assustador falar sobre uma Professora de Língua e Literatura que é revisora e Mestre em Literatura Brasileira e, além do mais, premiada como contista e poeta.

Mas as palavras de Claudia Manzolillo são leves como pássaros e, mais que voar, dançam, inventam nuvens de algodão-doce mesmo se a estação é de dores e lágrimas, e com sutileza são despidas das grandiloquências até ficarem nuas, simples, puras, claras como a delicadeza do azul das almas querendo iluminar nossas consciências.

Depois, já entregues ao seu leito de plumas e presos nossos olhares e sentidos, veste-as com a suavidade da música e ritmo próprios do orvalho sobre as pétalas, para que desfrutemos do aroma na medida exata do mistério.

Leiam, e verão! Afinal, é a Poeta Claudia Manzolillo, A Dona das Palavras!

 Antonio Torres

*

Claudia Manzolillo

Nascida no Rio de Janeiro, licenciada em Letras (Português-Literaturas) emestra em Literatura Brasileira pela Ufrj, com dissertação sobre a obra deLygia Fagundes Telles.

PublicouA dona das palavras (Editora Penalux, 2015), que recebeu o Prêmio Humberto de Campos, no Concurso Internacional de Literatura, promovido pela UBE-RJ, em 2016.

Alguns de seus poemas figuram em antologias, entre elas: Blasfêmeas: mulheres de palavra, 2016, Editora Casa Verde;Terça ConVerso,2016, Editora Ventura;Croceviadi versi, edição bilíngue italiano-português, 2016, Editora AvantGarde.

Premiada no Concurso Lila Ripoll de Poesia, promovido pela Assembleia Legislativa de Porto Alegre, em 2017. Menção Honrosa no I Concurso de Haicai de Toledo – Kenzo Takemori, promovido pela Academia de Letras de Toledo, realizado em 2017.

“A Dona das palavras”, livro de contos, publicado pela Editora Penalux, premiado no concurso promovido pela UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) 2016

Seis volumes em que as escritoras que pertencem ao movimento Mulherio das Letras publicam seus textos em prosa. Mariposa Cartonera, em processo artesanal, confeccionou os livros.
Muito honrada, estou no volume I, com meu conto Cândida.

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