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Aos primeiros contatos com a poesia de Carla Andrade já se vislumbra suas ricas imagens, com a maturidade e profundidade da poeta transparecendo na graciosidade e grandiosa simplicidade da linguagem utilizada.

Seguindo o tradicional caminho do talento mineiro a Poeta Carla Andrade escreve como gente grande, como quem conhece signos, significantes e significados, profissional da área de comunicação que sabe de que trata a Teoria da Linguagem, mesclando o conhecimento técnico com sua fina sensibilidade, muitas vezes enriquecendo essa habilidade e a vivência urbana com as memórias e experiências da vida rural, gerando essa poesia imagética, de linguagem própria, hipnotizadora e límpida como sua voz. Uma voz única, com um quê de “Manoelina” (Mestre Genial Manoel de Barros).

Carla Andrade é uma Poeta “Belzontina” para se degustar, desfrutar, acompanhar e estar, pois feliz e surrealisticamente, o que ela quer é simples como as “Verdades do rio”: “caminhar de mãos dadas / na varanda da vida / em direção ao mar”.

Antonio Torres

*

Imagem arquivo pessoal da poeta

O ESPELHO

Essa mulher no espelho
tem o mesmo olhar
abotoado da menina que roubava
as sombrinhas de cogumelos
das árvores e dos pastos.

Esse olhar no espelho parece
bolinhas de gude
na escada rolante,
olhos inconsequentes.

Essa mulher no espelho
tem gosto de hóstia
ao lembrar
dos dedos de menina
a lambuzar o próprio sexo.

Essa mulher é a mesma
que se atira nas raízes do seu colo
e se retira com nacos de barro
de obra inacabada.

Esse reflexo no espelho é o
reflexo de tantos outros reflexos.
Máscaras de pétalas
secas pelo tempo.

Coragem.
Pediu para o homem.
Essa mulher ainda sou eu?

Carla Andrade

*

Artesanato de perguntas

A colonização dos maribondos
nos meus pensamentos
começou em sânscrito.

Um mantra de curiosidade de luz
arregalava  meus olhos répteis de criança.
Às vezes, levava uma ferroada da ignorância.
Mas passava logo, com sopro em margaridas.

A infância cuidou da urbanização das ideias.
Conjunções interrogativas fizeram
prédios no horizonte,
mas os adultos não entendiam
a essência das janelas.

Depois, a rebeldia dos porquês escravizados
O desejo devorava séculos sem respostas
em pés religiosos atolados.
A independência da colônia veio depois
de um jejum de palavras.
Não quis mais saber o porquê do universo
e da minha travessia cambaleante.

Como um coral no fundo do mar
deixei que peixes me acolhessem  e
e  segui o movimento das algas.

Carla Andrade

*

O motivo do silêncio

Dendê, a palavra.
É pimenta que anula.
Gravata do sentimento.
Para o amor, envergadura.

A palavra
tem pele dura,
sem âmago.
É entranha de
fagulha.

A palavra é bêbada,
branca de desejo.
Vândala armadura.

Prende em ecos
o ar azul do dialeto,
rouba mãos, grossas veias,
esconde os dentes do afeto.

Invade a semântica do silêncio
a metáfora dos amantes.
Subverte o não nascido,
transverte
o que deve ser
polpa.
A palavra endireita
o que é certo torto.
Empobrece da alma o abismo.

Corpos nus
não conjugam verbos na cama.

Carla Andrade

*

Cacto pacto

Há nódoa no vento
a soprar as dobras
das flores
sem folhas.

Cicatrizes de sol
transmutam
o mofo musgo
em espinhos.

Vaga-lumes de feitiço
morenas canas mascam.
Sementes do castigo.

Cacto.

Aridez,
dor exposta.
Exposta em pinos.

Ouriço em poros oblíquos
não choram.

Até que a pele fina cede
aos corvos da seca.

Logo, surgem espinhos (predadores).

Um faquir:
sem boca, nariz.
Não transpira,
não respira,
vermelho ou azul.
Sempre pacto.

Lança
braços ao destino.
Tácito – tátil no ar.
Palmas resistem
ao gado.
Gado
resiste às palmas.

Pousa em flores
ambulantes de náusea,
pássaros ausentes.

Cascalho entre raízes
rasteja
rasteja veias — do resto do nada —
Resistem às marcas:
parasitas da morte.

Até que o pacto súbito
do reflexo cego —
sol e terra — revela
no útero as entranhas.
Da dor à fortaleza.

Brônquios amargos respiram
águapeyote.
Raios de vapor entorpecem
o hóspede habitado de alma.

Até que toda a vida no útero
engole a lua,
mas não nasce,

ainda é feto.

Carla Andrade

*

Como hipnotizar anzóis no tempo

Enfeitice
peões de mulheres
fantasiadas de nós
em chuvas
musicadas ao avesso.

Trance
o destino
bem acima
da última curva
do vento.

Liberte
o tropel de
tangos
das vertigens
adormecidas
em sonetos.

E por último,
faça um agrado,
como um sopro divino,
aos ogros verdes
da saudade.

Se tudo
resultar em nada
descanse os olhos
nas estrelas
aliviadas de brilho
sem respostas.

Carla Andrade

*

Tratado das perplexidades

Transitório e absoluto,
com dentes para o vazio,
o mundo procura, de matuto,
saber para onde vai o rio.

O rio conduz barco
e homem de alquimia.
Trança na água terra de luzes,
deixa à mostra pedras,
varizes e estria.
À noite, com a boca de estrelas,
e pernas de avestruzes,
recolhe todos os sonhos.

Aí, o silêncio ensina os ouvidos
a calar o corpo.
E o lodo,
essa lembrança de rugas,
cata insetos antes do sono.

Pela manhã, o mundo quer acordos.
O rio, contemplação.
Maestros de peixes
escondem contratos de criação.

Não existe filosofia para pássaros,
o voo em bando não requer citação,
o tempo não aceita remendos,
nem prestação.

O fim do rio não pertence ao mundo
nem aos restos de nós mesmos…

Carla Andrade

*

Poemas inéditos do livro no prelo “ Caligrafia das Nuvens”

Pássaro

Eu senti a morte
de um pardal.
Sopro se debatendo
no sólido.
Ainda tempo.

Do vidro em cor de ar
do chão granito,
da maca metálica, depois.
O socorro parecia arapuca.

Meus dedos sem raízes.
As asas procuraram
todas as árvores cortadas.

Os pulmões cresceram
e diminuíram
como o céu inexistente.
As pernas sem tocar os galhos
lá fora da janela.
A janela parecia tão longe.
Eu estava longe.

Com saudade de sentir.

Carla Andrade

*

Nossa primeira viagem

Nova caligrafia de nuvens
o sol e sua esgrima de raios
bromélias como cataporas nas montanhas
e o caleidoscópio nos seus olhos.
É manhã – e a eternidade cabe na distância
entre nossos pés delicados.

Carla Andrade

*

Deixei na sua caixa de entrada

Ah nem…
Vc fala demais.
Conta os quadrados do piso.
Escuta o barulho da água
da fonte
da Feira da Torre
e diz que tenho que relaxar.

Você põe grampo
em tudo.
Diz que há vórtices
onde não
há.

Que merda é essa de achar que
tô escrevendo para um
homem só? Que você é quem
eu digo na poesia?
É a mistura de todos, você.

E nem há mãos pra nos dar.
Elas ficam suadas,
só de pensar que vamos deitar
em nós mesmos.

Vimos o PingPong Show na Tailândia.
As duas garotas tiraram as cordinhas
de giletes de lá.

Quis perguntar como elas faziam isso.
Para você
bastava falar
a palavra antropologia.
Happyending.

Você gosta de pecado.
E nem lê a bíblia.

Toma seu remédio
e vamos dormir
antes de meia noite.
Ou goza dentro.

Carla Andrade

*

Vídeos Poemas

Eros

Verdades do rio

Anatomia das Cores

*

Livros

Participações em Antologias

*

Posfácio de Wander Porto

Foto arquivo pessoal da poeta

CARLA DE ANDRADE

!
Desejos são como pães no forno da noiteperfumando a aurora para o parto das manhãs,
Invasivos
!
Palavras verdadeiras e despidas são como os sobejos de melado ornando a orla da boca,
Mal-educados
!
Poema existencialista na manhã temespelho nas vírgulas e facas de magarefe nos pontos,
Mortíferos
!
Poetas regemfábulas sobre fábulas e todas, uma a uma,trazema condição das tatuagens,
Indeléveis
!
Poesia, digo por mim, é lance que não se fala,
Não se cospe,
Não se cala,
Não se masca,
Não se bebe,
Não se come,
Não se caga:
-Inocula-se,
Como a alma sôfrega quando o susto engasga com próprio o fôlego
!
Assim, do nada, o zero absoluto que são as vontades dos poetas, brotam dois substantivos abstratos e uma Carla. Depois, alguns adjetivos melodramáticos e uma Carla. E então, uáu, surgem um, dois, cem ou mais verbos transitivos seguidos de alguns milhares de intransitivas personas, diretas e indiretas, e uma Carla, depois uma Carla, depois outra
!
E a s coisas acontecem em turbilhãologo depois que se ouve o pioprimal da musa, alucinada e pagã, sob a barra da saia da noite, noite de gala, esse lapso de tempo fútil e imenso, escuso e bordeleiro, vagabundo e sagrado, com seu agasalho bordado de pérolas cultivadas no mar universal das lágrimas. Oceano. Lágrimas reluzindo estrelas na imensidão do breu derretido dos sonhos, essa gosma pegajosa e virulenta queescorre pra cima, esparrama pelas bandas, lambuza os fundos e deixa meio zureta a gramática dos dias, mas, benemérita, a todos iguala no cu das madrugadas
!
Antítese: Caracas, Meu, como são belas e pródigas as noites e as fotossínteses
!
Assim, do tudo, como quem quer devorar pelos poros todas as virtudes que Baudelaire, e Carla, nos fazem acreditar que têm sabor de puro tinto frutado,jovem e encorpado, but… Na verdade,o sublime líquido que nos oferecem é um blendde canabisliquefeito no frasco de violeta genciana que desinfetava os nossos mais queridos cancroscom o sangue destilado das angustias juvenis que, modernos, cultivamos desde os tempos de Jimmi e janis quando, imaculados, deixávamos que as guitarras nos eletrocutassem de 8 em 8 minutos, distorcidas, como um antibiótico de última geração. Mesmo com medo, ou temor como preferem as religiões, dormíamos sexuais e psicodélicos sob o manto dos deuses
!
Um amigo, cirurgião buco-maxilo-facial (basta este nome para jorrar terror pela boca afora e adentro), me conta que para a realização de uma cirurgia de recuperação do osso zigomático quebrado é a coisa mais simples do planeta: – Faz-se um corte abaixo do globo ocular, expõe-se a fratura, insere-se um gancho, pesca-se o osso quebrado e depois é só dar um puxão, um arranco grotesco, que o osso partido volta ao seu lugar natural junto à sua estrutura axial e com o tempo, 3 ou 4 meses, fundem-se e, de novo, estão aptos para novas porradas
!
A Poeta Carla faz justamente isto: Enfia um gancho de sensibilidade,com densidade molecular do aço e imagem e semelhança de uma âncora de navio mercante, corações adentro, do seu, do meu e, por extensão, de todos, e nos pesca a veia ou a artéria inerte, que vegeta no estrume dos pensamentos, dá-lhe um arranco e a traz outra vez para a realidade, para a ação, seja ela qual for, desde que viva
!
Hey, Bicho, saca Amy Winehouse?Pois é
!
Temos andado, o mundo e nós, por estreitas sendas tentando voltarmos para as cavernas. Não as paleolíticas, período mais antigo da Pré-História, caracterizado pela indústria da pedra lascada, ou seja, pedaços de rocha quebrados grosseiramente e usados como armas e como ferramentas, mas às delicadas cavernas de algodão e receios, de luxúria e asco, de ser e não ser, de folia e cansaços. Cavernas onde brota as samambaias propícias ao joguinho do bem-me-quer e malmequer. Eu não cavouco mais, tenho a poesia, tenho a ferramenta da poesia. Desbravo Carla de Andrade na cornucópia das noites
!
Leio Carla de Andrade na barra blues das manhãs
!
Como Carla de Andrade no ápice das taquicardias cotidianas
!
Agarro Carla de Andrade no vórtice dos ciclones que me retorcem os olhos
!
Bebo Carla de Andrade quando quero paz
!
Injeto Carla de Andrade quando caço guerras
!
Fecho Carla de Andrade quando quero dormir comigo
!
Por favor, não estranhem as exclamações. Dizem que a primeira impressão é a que marca,
a que fica. Estupefacto, assim arcaico, foi como fiquei ao tomar contato com Carla de Andrade e sua poética viva
!
Mas Carla de Andrade de carne&osso eu ainda não conheço
!!!!!

Wander Porto

*

Carla Andrade:

é mineira de Belzonte. Tem três livros publicados: Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras.

Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta. Inquieta e arteira, herdou um grande talento da tradicional família mineira: a arte de boiar e atravessar pinguelas.

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