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*

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz”.

Ferreira Gullar

*

I

Achou uma moeda no chão
Guardou-a
Lhe atribuiu poder e fez oração
Era sorte
Salvação
Meteu-a no bolso furado
Não prestou atenção
Na desventura a moeda sem dono
Foi encontrada pelo menino faminto
Que comprou um pão

Vanessa Dias

*

II

M&M’s

Os filhos já não choram
nem pedem
olhos de chumbo e sílica

Passaram-se noites de argila
em que sonharam a casa moldada
o branco dos quartos

Na cozinha há um baleiro açucarado.

Eu temia esse tempo:
das flores de plástico
das balas de enfeite.

Adri Aleixo

*

III
ser oito e oitenta

hoje e sempre quero o direito
de ser tempero para a inclusão

ser tetas para rômulo e remo
queimar ou usar sutiã
explodir de liberdade
ou lutar para que não mais se morra
em travessia de sala-quarto-cozinha

acertar ou errar os alvos
no ofício de sempre seguir
ser flor que brota entre pernas
ou presença que puxa o gatilho
nos ouvidos da indiferença

hoje e sempre quero o direito
de ser remo e de ser rio

Lourença Lou

*

o que era doce

o rio
provedor
de esperanças
perdeu sua alma

gritou em múltiplas vozes
colocou pra fora a cabeça
não adiantou:
afogou-se na lama

seus peixes
– os esqueletos que restaram –
fingiram que existiam
na mudez de seus entalhes

o rio perdeu seus espelhos vitais

Lourença Lou

*

IV

Sem o pó

um dia isso tudo acabará
um dia não seremos mais nada
um dia será tudo pó

mas antes disso tudo terminar
e antes de virarmos poeira cósmica
ainda lembraremos que vivemos
um dia após o outro, sendo tudo
ou um pouco de nada

mas nada mesmo, nem um pouco
que se compare ao tudo de sentir,
de experimentar a paixão de viver
e que honre um punhado de pó…

a não ser naqueles raros momentos
em que -distraídos e extasiados por algo
pequeno aos olhos, pueris e simples,
que nem sabemos como explicar-
conseguíamos tirar o pó dos olhos
e dos espelhos

Chris Herrmann

*

V

As Coisas

Bebeu devagar
o copo de nada
para não acabar depressa

As coisas dormem
no quarto
por décadas de não – existência
encerradas na tumba
dos afetos esquecidos
em seu destino de coisas

Desliza em si um suspiro de solidão

As rugas e seus cabelos brancos
lhes dizem durma
mas o olho do fantasma voyer
à espreita no buraco da fechadura
lhe rouba o sono

A flor de veludo de centro negro
pistilos dourados
se oferece ao olhar
louca no resgate da beleza
em seus encantos
deusa à espera de ser admirada

Tenta um vôo longo
descerrando a noite pela janela
Precisa do ar de menos coisas
um largo sorriso de lua

Estrelas estreiam o tempo em anos luz
flores vivas lhe embebem de perfume

Quer cintilações e magnetismo
menos elegância e olhares vivos

o que vê é a imagem do orgulho
desfigurado pelo tempo
o que luzia hoje é pó
espelho de saudade
a que as coisas se prestaram
um dia …

Toma um gole de alegria engarrafada
deseja impulso
um ato de amor à si

não consegue entender
a matéria que destrói a vida
o sufoco do excesso
a loucura do consumo
não exorcizado

Calça as botas
se enrola no cachecol colorido
e sai …

as coisas são simplesmente coisas
em sua permanência de durante .

Cristina Siqueira

*

VI

Para Violeta Parra

corta o mato, cava o chão,
foice e enxada empunhadas
pés no barro das montanhas
na garganta uma toada
O violão, em casa, espera.

a lida no campo é dura
precisa de força bruta
menina, flor, formosura
conhece dores e canta a labuta,
em casa, o violão lhe espera.

enquanto lavra a terra, inda virgem,
faz versos, rima, esperança,
incita a luta, dança no circo,
pinta e borda e esculpe e amealha
no vale, o violão sola espera.

engravida a terra de sementes
e canta e dança e encanta e sonha
reproduz violetas nas montanhas
o vento espalhará as idéias
em casa, o violão se exaspera.

são tantas as bocas famintas
o pão é pouco, o vinho escasso
não há alegria e tambores
nem liberdade de expressão
em casa, o violão desespera

muitos tiros enchem as bocas
de meninos boquiabertos
que almejam revolução
nos braços de Violeta,
o instrumento, um violão!

Ivy Menon

*

VII

A vida e seus sortilégios
Talvez esqueça
A letra de uma ou
Mais canções

Enquanto a garganta
Acumula o grito
E ideias dos loucos
Subversivos

Retire o vazio das palavras
Até o canto fecundar
O que não pode ser dito.

Luiza Cantanhêde

*

VIII

Queria o canto
de uma Voz por todas
enquanto a angústia desliza
no mundo

Irrigar secas raízes
entoar palavras e júbilos

Não, nenhum eco persiste
e somos todos
sombras ao fundo

Em praças ou becos
cantamos
Sozinhos

Não há um grito
que salve ao menos
Um destes nossos

Anjos pequenos.

Elke Lubitz

*

XIX

defender o amor como uma mudança urgente
mostrar os dentes aos cães no tornozelo
não morrer acuado na parede
fazer dos braços a trincheira do outro
emitir a voz no silêncio do muro
a voz no silêncio, urgente
a canção perfeita em seu corpo
a voz do amor, essa mudança urgente

Fabíola Mazzini Leone

*

X

O menino ouvia a Canção
E perguntou os seus pais
O sentido.
Seus pais ficaram mudos,
Pois se tratava de uma
Realidade muito comum,
A qual faziam parte,
O menino esperto disse:
Ainda vou vencer!
Não se Culpem,
Por isso,
A vida é uma canção, triste, alegre,
No qual não podemos esquecer
Que o sentido dela,
É que nos move continuar,
A luta, sem fraquejar.

Tassio Ribeiro

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