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“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz”.

Ferreira Gullar

XI



Beijo de língua

Beijei
Inúmeras
Bocas
De línguas
Sussurrantes
Pra criar o dialeto
Do grito!

Tânia Regina Contreiras

*

XII

Sempre nova

Meus vestidos ponho um ou outro
às vezes todos
sobre armadura inoxidável

minhas ideias também
e protetor solar fator mulher

mas a vida é desse tipo de luta
que estraçalha texturas
como se lembrasse
o quanto natural é exibir a nudez.

Joelma Bittencourt

 *

XIII

…Aos que têm voz…

Se eu pudesse
ajoelharia aos teus pés!
.
Eu os beijaria em humildade
franciscana,
os lavaria com bálsamos do oriente,
os enxugaria com toalhas
do mais puro linho
.
Só para que me ouvisses,
prestasses atenção à minha dor,
eu, que não possuo voz,
que morro diariamente
nos guetos semi-imundos
onde jogam como lixo humano,
as pessoas como eu.
.
Eu, que não tenho voz,
que sou número,
braços,
pernas,
corpo inteiro
a teu dispor,
hoje eu te imploraria,
seja a minha voz no mundo,
falta tão pouco para isso,
enxerga-me!
.
Enxerga-me,
por favor, por favor,
eis o primeiro passo para que eu exista,
perca essa invisibilidade perversa
que me desumaniza
aos olhos de tua indiferença…
Eu realmente te suplico,
enxerga-me!…
Dá-me tua voz por empréstimo,
por caridade,
para que não morram mais meus filhos,
irmãos,
como antes já morreram
meus pais
e os pais dos meus pais,
.
Enxerga-me pois,
para que eu venha de fato
a existir
como gente,
como ser,
como cidadão,
que a palavra “direitos”
não seja algo estranho que ouço na TV,
e não chega aqui onde eu vivo,
empresta-me a tua voz,
porque meus gritos não têm valor,
.
Se não me vês,
como pensarás em mim como um igual?
Se não me vês,
como falarás por mim?
Podes até, por cruel equívoco,
unires tua voz
justamente àqueles que mais me oprimem,
e eu não quero acreditar
que me odeies,
que sejas indiferente
a esse tudo de vida
que me falta,
a mim
e aos meus…
.
Empresta-me
a tua
voz!

Eduardo Ramos

*

XIV

DAGA EN LOS OJOS

Cuando el silencio
es más que un grito
– muchedumbre de almas
que gimen encadenadas,
queda claro como el sol
que todos nosotros
necesitamos despertar,
romper el letargo
que nos paraliza
como estatuas de ángeles
guardianes de la ilusión.

Cuando el silencio
es más que un grito,
el mundo deshecho
es como una daga
clavada en los ojos,
un dolor que arde
como lágrimas de fuego
de una estrella.

Antonio Torres

*

 

 

XV

Quando foi
que nos tornamos
a pior espécie,
a matar em prece
em nome de um pai,
a separar em cores,
gêneros,
territórios e
valores de castas,
os tremores dos anjos
que choram em coro,
e que nada podem
contra o inferno
que nos tornamos?

Jô Diniz

*

XVI

___ENXURRADA___

Cantiga
De limpar as águas,
E acender estrelas
Cantiga
De zerar as mágoas
E não mais tecê-las,
Cantiga de cantar com a chuva que cai no telhado;

Cantiga
De queimar incenso
E comer com a mão,
Cantiga
De revirar o chão
E quebrar o senso
Cantiga de comer inhame com sal ou melado;

Cantiga
De sonhar fantasias
E renascer moleque,
Cantiga
De estripulias
E amarrar pileque,
Cantiga
De trançar embiras
E limpar a barra,
Cantiga
De tocar guitarra
E espantar as birras,
Cantiga de correr com a ema em pleno cerrado:

Cantiga de descanso do homem que planta,
Cantiga de sossego da mulher que fia,
Cantiga do olhar que a tudo encanta,
Cantiga de brilhar na luz do espanto,
Cantiga de vem cá Maria,
Cantiga de voar meu canto,
Cantiga de correr ao nada,
Cantiga de não passar calço,
Cantiga de enxurrada,
Cantiga de andar descalço.

Wander Porto

*

XVII

Então. ..

João me deixou
José me despiu
Beto me usou
Lenin me surrou

Fui desamada
A alma desesperada
Me sussurrou:
– mulherzinha
és anjo caído.
Ah esse amor sem presságios
Ora áspero, outras tênue.

E o demônio cantarolou:
– boi boi da cara preta
pega a mulherzinha
Que tem medo da solidão.

Jose Couto

*

XVIII

para que o fogo não arda tanto

acordemos
porque
muros derrubados
não mantêm acesos
os olhos do renascimento

gritemos
porque
dores seculares
sempre alimentarão
caldeirões de rancores

ressuscitemos
ralos e ratoeiras
e limpemos as arenas
que digladiam
o sentido de república

oremos
com joelhos de fé
para que dedos corrompidos
não algemem
os anéis deste poema .

Lourença Lou

*

XIX

O FETO

A coisa estava vida
Informe. Parada.
Ainda protegida
E presa na mulher. ..
Zelo e apreço a arrumar guarida
Crescendo coração. ..sangue, ossos, pele, pé.

A mão segura – se com pressa
O enorme ser retém -se.
Um arrepio
Promessa!
0 útero então fala
De um falo que resvala
E desce – lhe um rio.

Tem rosto? Não!
Só movimento e gosto
O caminho enfim aponta
Sem trégua o grito rasga
Recusa o corpo a coisa
Sem desgosto!
Sôfrego o ser desponta
Na dor que lhe esmaga

O sonho se apressa
E o que era promessa
Enlouquece. ..Enternece.

A coisa que não se via
Tão quente me sorria
Tão gente me sugava
Uma vida!

Marta Aguiar

*

XX

JUREI NÃO SÓ CHORAR PELA ÁFRICA

De lá do muro
de lá do morro
de lá do pacífico
de cada porto
dos podres poderes
das tetas das mães-pretas
O vale das sombras
é zona de conforto!

A pressa trespassou-me
as meninas dos olhos
e os meus pés tropeçam
em lixo humano.
Dirás pr’eu me erguer
com um Brian Atwood
e recobrar a visão
com Dolce & Gabbana.

Que o chifre da África
não está no pacífico
e os Emirados
ficam logo ali.
Quiçá os Jardins Suspensos
Palais de Louvre!!!
que ainda
é Belle Époque em Paris!

Despicienda tua apoteose
ou minha excruciação
na lista de “As Dez Menos”!!!
O engenho não é tocado
por grandes homens
mas pela grande força
dos pequenos!

Dirás
que o meu tardio
voto de pobreza
não passará o camelo
no fundo da agulha.
Nem devolverá as asas
agouradas dos anjos
ao seio tísico de
insontes cambulhas!

Que só, não tombarei o Muro
das Lamentações;
e cada um nasce
com o seu troféu.
Ainda anuis, só compartindo
a pior foto:
“Antes os dedos
que o anel”!

O irônico engano
dos anônimos
é legar seu potencial
a titulares.
Serás o ralo
do calabouço
ou a gota
a brandir os mares.

Se não vais à Somália
Etiópia, Brasis,
até soberba
a fome aceita.
Começa em tua rua
transforma-te junto!
A virtude é que põe
os zeros à direita.

Consuelo Pereira Rezende Do Nascimento

*

XXI

O cinismo

Vociferarei ao vento
Em nome de ninguém
A ira das distorções.

A ganância desfigurada
Mais que a miséria
Me alumbra e assusta.

O veneno se alastrou irreversível
Sem perspectiva de horizontes

Só resta ao sol
Amanhecer na escuridão.

Jose Couto

*

XXII

PRÉ VIDÊNCIA (para Gregos e Troianos)

O meu João
não foi, não!
foi
comprar cigarros!
Somente
a nossa chama
fumega
o nosso barro.

Beijou a identidade
do seu país,
o título, o voto
a foto.
Guardou a reservista
no verniz.
O bem documentado
é devoto.

Nunca embriagou
senão de paixão.
Era artilheiro
do empate.
Só bateu
em cartão de ponto.
Nunca matou
nem a saudade.

Nenhuma afinidade
com pó-lítico.
Seu suor
era sagrado.
Nunca cuspiu em prato
que não comeu.
Só roubou
beijo atrasado.

Nem carne fraca
um papelão sequer.
Nenhuma pétala
de mal-me-quer.
Pelo batismo
ou comunhão
eu preciso
do meu João!

Quem sabe foi
à casa da mãe?
A irmã terá sido
assaltada?
Ou o assalto
foi da merenda
enquanto a estudante
era estuprada?!

Acaso tinha
a ambul-ância?
Ou adulteraram
a gasolina?
SUSperfatura?
SUSpensão?
Ou mais um óbito
da merdicina?!
Pelo amor
sem indenização
tragam já
o meu João!

Trará vidas
do lixo humano?
Ou socorrendo
transgêneros?
Ou desbenzendo
chocados
que querem gays
como efêmeros!

Ou laçando
feminicida
da sobrinha, tia,
cunhada, vizinha?
Será quem frauda
a perícia?
Ou a farda
está com a milícia?
Pela dor
ou premunição
quero aqui
o meu João!

Será que infância
tem lei-tura?
Ou o discípulo
vem do tribumal?
Ou reeleição
do pré-feito…
ou abz do amor
antes do penal!
Pela fé
ou por Sansão
não corte
o fio de João!

Será que foi ao
banco social?
Ou rasgaram a caixa
no congresso?
Terão surrupiado
até os fundos!
ou rateado
o abscesso?
Minha causa
minha vida
ratos na entrada
e na saída!!!!!!!

Será que procura
um advogado?
Será que o advogado
é procurado?
Será que o juízo
é cosa nostra
e tudo termine
en-cenado?!

E se o discípulo
de-capta a África?
Cadê os menores
da Pau-lista?
Quem apagou o muro
das lamentações?
Antes o tra-ficante
que o artista?
Tragam o meu João
como estiver
antes da dança
de Salomé!

Será quem bate
na milícia?
Será que a fome
é ficção?
Velho Chico
lavai pro nobis!
É no planalto
a erosão?!

Haverá noite de
sufr-ágios?
Tribunais
de exceção?
Desa-foro
privilegiado?
Céu primário
ao bom ladrão?
Será que
merda reluz?
Livrai o meu João
desse pus!
Que o seu credo
não seja em cruz!!!…

E se o congresso
virar xilindró?
E se a escola
virar país?
E se a favela
for a capital?
Nunca antes
neste país!!!…

Consuelo Pereira Rezende Do Nascimento

*

XXIII

Na carne da Pátria um sabor ácido
Na linguiça cabeça de porco moída
Na mama do leite
A soda cáustica sem lacto
No frango a Nação sem pacto
De um papelão de um gol
De mais uma partida da vida vazia
No coração do povo
O veneno do remédio com farinha
Na cerva , milho aos pombos
Rituais de restos da nossa comida
Na política os ladrões de mãos dadas com as mentiras
No corpo gânglios do câncer
Dos gângster da corrupção
Na cabeça do eleitor
Essas lesmas lerdas
E muito pavor
Desse monte de merdas reunidas!

A gente vai sobrevivendo
De alma encolhida
Com sombras , sobras e silêncios
Visão estraçalhada
De nuvens cinzentas de desgraça
Vamos vivendo
Tendo saudades da menina VIDA!

Paulo George

*

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