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A Canção do exílio, de Gonçalves Dias, um dos mais populares poemas da literatura brasileira, e com certeza, a intertextualidade mais frequente na nossa tradição poética. O retrato idealizado do país, a saudade do poeta romântico da pátria e a realidade dos problemas político-sociais do momento, nas extraordinárias releituras dos poetas atuais. Proposto como um simples exercício de criação, as vozes dos poetas revelaram belezas e indignações. Uma profunda capacidade de reflexão de como estamos tratando a nossa cultura. Mesmo não sendo esse seu papel, o poeta (antena) acaba sendo um porta voz da população em suas reivindicações.

Jose Couto

Artes Luiza Maciel Nogueira



*

Das dores, o Exílio

Das coisas da minha terra
o forte abraço do meu povo
homens que se fazem iguais
como em nenhum outro lugar

A saudade das nuvens altas
do vento minuano que corre
varre qualquer coisa que não
o amor pulsante pela velha casa

Nas noites distantes traço
no horizonte o Cruzeiro do Sul
riscando o véu da madrugada
com os dedos e a saudade

Das coisas que não encontro
em nenhuma outra terra, o cheiro
de barro e mar de onde Deus
tirou a matéria e plantou
lívido – em sopro, à noite-
o suspiro que nos fez ser mais

Não fica o homem longe
de quem o ama porque assim queira estar
fica, porque, para nestes permanecer
precisa desfazer-se do que mais ama;
quisera não ter que afastar-se
de onde os sabiás lhe fazem falta

Marcelo Adifa

Arte Luiza Maciel Nogueira

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De Gonçalves Dias ao Tempo da Utopia.

Moro num País utópico da América do Sul
Palmeiras são decapitadas
E urubus passeiam no céu azul
Coitado do poeta Gonçalves Dias
Que perdeu seus dias cantando o sabiá
Ele não sabia
Que tudo se desmancharia
Do Guarani ao Guaraná
Aliás por falar em Santa Cruz
Em Pero Vaz de Caminha
A liberdade em cruz caminha
Matando quem a adivinha .

Paulo George

Arte Luiza Maciel Nogueira

*

Canção da extinção

Minha terra tinha
Arara Azul Tietê de Coroa
Pica Pau do Parnaíba Soldadinho do Araripe
Gavião de Pescoço Branco Mutum-de-Alagoas

Aves que aqui gorjearam
não gorjeiam mais
Não permita Deus a extinção
Do Sabiá-peito-roxo Sabiá-de-barriga-vermelha

Sabiá-poca sabiá-laranjeira sabiá-pardo
que gerações futuras
avistem na palmeira o sabiá
desfrutem o canto do sabiá

Jose Couto

Arte Luiza Maciel Nogueira

*

Canção da anistia
.
Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá
e toda uma sorte de aves
que mal posso nomear

por seus cantos transparentes
ganha o céu ditosas cores
céu que à noite em mar de estrelas
acalenta minhas dores

se ao cismar, sozinho à noite
perambulo a imaginar
um céu de outra paragem
e em miragem vou eu lá

logo me brilha o cruzeiro
e me chama o sabiá
que sabia e sempre sabe
o momento de cantar

minha terra é o chão que piso
tanto aqui como acolá
em Deus o pouso preciso
desse livre sabiá.

Gustavo Terra

Arte Luiza Maciel Nogueira

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A ESCRITA DE GONÇALVES

Nestas distâncias sem conta,
Que a terra espalha e sepulta,
Afina-se o canto da ave
No que se revela e se oculta.

E a ave decola em prantos
Sobre as vazantes da vida.
Celebra o fio de espera
Sangrando o tempo e a ferida.

Seu olho mapeia o passo
Do homem que um dia dirá:
“Quisera, meu Deus, quisera,
Bater asas para lá”.

Nathan Sousa

Arte Luiza Maciel Nogueira

*

Refúgio

fiz minha terra
sarjeta
fiz meus bosques
foqueira
fiz meus amores
tristeza
fiz meus prazeres
pedreira
fiz minha noite
vagueia
fiz meu consolo
palmeiras
fiz melodia
gorjeio

ouvido n’alma acalanta
sabiá que e(n)canta
fazendo pranto secar

não me permito a morte
vôo nascido
destino
pouso meu lar

Flavia D’Angelo

Arte Luiza Maciel Nogueira

*

minha terra
tem as damas da noite
que botam pra correr a puta
que ousar roubar o ponto delas

tem ponto por debaixo dos panos
quando um tiozão
paga por molequinhas virgens
e por menininhos também

tem ponto g ignorado
por trogloditas
que trepam com suas fêmeas
como se trepassem
com uma boneca

cismo que cismo à noite
pra ter um pouco de tesão
minha terra
tem seringueiras sangradas
pra preservativo virar balão

minha terra
não tem papas na língua
desde que o tupi guarani
perdeu o posto de língua mãe

as aves que aqui voejam
são depenadas no carnaval
nosso céu de certeza
só o da nossa boca
porque contrato com deus
só no regime celetista
nossas matas quase mortas
quase mortos nossos natos

cismo que cismo à noite
pra ter um pouco de tesão
minha terra
tem seringueiras sangradas
pra preservativo virar balão

Beatriz Lourenço

Arte Luiza Maciel Nogueira

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SEGUNDA CANÇÃO DO EXILIO

Nuvens tão brancas em céu tão dulcíssimo,
tanto azul sem razão para enfeitar os montes,
nem bem entrara eu neste Maranhão de ontem,
onde o tempo do sagrado e do divino
são bandeiras nutridas entre vinhos.
Fui e voltei a nado nos braços da morte,
como fez o grande poeta Antônio Gonçalves Dias,
para cantar palmeiras, xô, passarinhos!,
assim começa esta canção do exílio.
Sim, os poetas exilaram-se todos pra dentro de si mesmos.
Nenhum sabiá cantava à toa,
nenhuma bandeira balançava-se ao vento.
É tempo de contar destroços, resgatar tesouros de navios
saqueados desde a Ponta da Areia
até outros mares mais bravios.
Piratas de gravata e notbooks
com ligeiras noções de economia
pegaram seu butim e foram embora,
deram à vila de novos Dons Diogos:
deixaram-nos a Madre Deus e bumbas rotos.
Minha terra tem palmeiras
e o meu exílio é aqui.

Raimundo Fontenele

Arte Luiza Maciel Nogueira

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Extinção do Empecilho

Se isso ocorrer de fato
Haverá menos Gato e
Rato
Orfanato e Cão

Toda fé na Lava Jato
A fatal Operação

À Justiça pede-se: vem cá
Prenda os ladrões de
Sabiá.

Céus, que ainda floresceis de estrelas,
Descei a mais bela e cadente,
Para livrar da roubalheira toda Gente:
Nossa Terra Brasileira.

Tere Tavares

Arte Luiza Maciel Nogueira

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CANÇÃO SEM BRILHO

Minha terra tem palmeiras
Onde cantava um poeta
Que cantava que minha terra
Tem palmeiras
Onde canta um sabiá.

E tem mesmo.
Só não tem quem ouça,
Exilados de nós que estamos!

Wander Porto

Arte Luiza Maciel Nogueira

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EXÍLIO DA CANÇÃO

Minha terra só gorjeia
Para as palmas das palmeiras
Aqui os sabiás se perdem
No canto que tanto tentam.

As nossas serras e mares
Mostram o que aqui não há
Que a vida é grande, e canta
Tão diferente de cá.

À noite, saudoso, quieto,
Aqui é quase um morrer.
Minha terra me levanta:
Lá tem tanto pra fazer.

Belezas por lá abundam.
Aqui vivem escondidas
Como se doentes, e nunca
Contentes como são lá.
Minha terra tem gorjeios
Cantados em todo meio.

Que eu não venha a morrer
Antes de escutar
O canto que lá é vibrante
Tão diferente de cá.
Antes das palmeiras, suas palmas
Ao espetáculo dos sabiás

Paulo Bentancur

Arte Luiza Maciel Nogueira

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CIDADE CINZA

Minha terra tem poucas palmeiras
Onde cantam poucos sabiás
As poucas aves que lá gorjeiam
Poucos conseguem avistar

Nosso céu tem mais fumaça
Nossas várzeas menos flores
Nossas flores menos vida
Nossa vida menos cores

Em cismar sozinha, à noite
Da natureza distante falta água e ar
Minha terra tem poucas palmeiras
Onde cantam poucos sabiás

Minha terra tinha frutíferas árvores
Que tais não preservamos lá
Em cismar sozinha, à noite
Da natureza distante falta água e ar
Minha terra tem poucas palmeiras
Onde cantam poucos sabiás

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu lute e veja mais verdes áreas lá
Sem que aviste muitas palmeiras a balançar
Onde muitos possam ouvir cantar
O canto das águas, das aves
E dos sabiás.

Inês Santos

Arte Luiza Maciel Nogueira

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Luiza Maciel Nogueira
Links
http://versosdeluz.blogspot.com.br/
http://desenhosluizamaciel.blogspot.com.br/

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