sábado, 24 de junho de 2017
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Minha Pátria

I UM HOMEM Um homem que não canta a sua pátria Não pode ter as dores do seu povo Nas sombras da sua face Um homem que não grita Para o lume dos astros Esse tempo de injustiças Na terra não deixará seus rastros Se for poeta nunca voará Feito um pássaro Sobre o deserto das horas aflitas Um homem que não espalha seus ventos de dentro De loucas e lúcidas tempestades Nunca secará o rumor dos lamentos Erguerá a taça com os covardes Um homem que não caminha a passos largos Entre ruas e mares sangrentos Morrerá sozinho em seu barco Naufrágo dos seus próprios tormentos Um homem que não reparte Os dons da sua vida As fontes da sua palavra Nunca terá a ARTE De colher uma margarida Do vulcão que já se alastra Paulo George * II Minha pátria pútrida Em ti as flores estrumam Crianças brincam Com a inocência das abelhas No ocre do ar que borrifas Pátria pútrida querida Que poderia eu senão louvar-te Com o sangue inerte dos patriotas? Tu, movediça lama de rios atolados Por minério e trinta moedas Teus desgraçados multiplicam-se Enquanto dás de mamar Aos hipócritas És inferno Mas fazes dormir Tens canções de ninar Oh, Terra do Quase Erguida sobre o assassínio De Pindorama Incansável pútrida Vendendo meninas na estrada Cobrindo de poeira os nossos olhos. Adriane Garcia * III Antes de deserdar Minha pátria é ilusionista se me quero expatriada vale-se de um passe marginal que me rouba as sandálias e me lança ao quintal ter os pés no chão faz de mim um bicho feliz e desmemoriado. Joelma Bittencourt * IV ____ APATRIAÇÃO ____ Seu sobrenome é pátria, Anômala fêmea marsupial, Subscreve-se como mãe, Escraviza seus filhos E, com viés de chibata, Nulifica as suas filhas, Não se sabe de onde (talvez do medo), Não se sabe por que (talvez por fome), Só se sabe que veio, Veio em caravelas, Atravessou oceanos, Consagrou-se a deus, Aportou-se em correntes Atravessou montanhas, Engatilhou os dentes, Inaugurou seus cárceres, Engradeou suas portas, Rangeu suas cravelhas, Escreveu-se em mentiras, Cresceu sem verdades, Viciou-se em segredos, Depredou suas pontes, Secou a água das almas, Verteu inferno nos sonhos, Tramelou as janelas, Amasiou-se com a noite, Extinguiu as estrelas. Dorme no capacho De olhos abertos, Em meio aos sórdidos, No fronteira dos aflitos, Para que nenhum deles escape Do conformismo dos próprios gritos. Wander Porto * V Remos cansados são asas aflitas no barco de esperas não tenho terras meu mar é o exílio - espumas soberbas Ondas acesas empurram meu barco estrelado Minha terra é onírica minha terra é líquida Minha pátria é Solidão. Elke Lubitz * VI Pequenas memórias Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda. Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas. Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga. Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia. Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional. Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador. No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos. No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país. “Eu te amo meu Brasil, eu te amo Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil eu te amo, meu Brasil, eu te amo ninguém segura a juventude do Brasil”. A infância fedia, inocente.Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava.No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões. Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina. Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta aorei de Portugal. Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo. Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos do Texas e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso. Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos. Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados. Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor. Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão. Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx. Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park. Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain. Os que cozinham. Os que ralam. Exceções? É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem. Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960. Nós somos os de durante. Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas. No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar. Roberto Lima * VII caducação uma hora a casa (inevitavelmente) cai há trabalho for_mal infor_mal vitalício (rondando assombrando) mortal que são todos escravo da providência, Deles há moradas sem teto rua beco buraco há fome aqui ali no Haiti há educaducação des_informação des_orientação deformação formatação da for_nada educação desam_parada há conflitos interior no exterior no Planalto no asfalto não há sorriso que se sustente nem alegre nem triste amanhã há de ser outro dia com um abraço no meio do caminho e essa sobrancelha pra fazer Silvia Maria Ribeiro * POEMA ORIELISARB À maneira do Ferreira Gullar no lisarB se gasta oitenta e dois milhões com cafezinhos nos ministérios e no palácio da presidência da república no lisarB se gasta vinte e oito milhões por dia para o funcionamento do congresso no lisarB deputados e senadores custam mais de um bilhão por ano no lisarB mais de 100 milhões de sorielisarb não tem acesso ao saneamento básico mais de 100 milhões de sorielisarb não tem acesso mais de 100 milhões de sorielisarb mais de 100 milhões mais de 100 milhões mais de 100 milhões Jose Couto * XIX SOMOS TODOS EXTRANJEROS A día de hoy nos enfrentamos a un mundo muy extraño en lo cual somos todos extranjeros: donde nacimos o vivimos es solo nuestra aldea, lugar de superación y aprendizaje. Sí, somos todos extranjeros desde que hicieron de la patria un muro como bandera o idea que nos persigue como la ley al condenado. Pero como somos todos extranjeros el mundo entero es nuestra patria, así como el cuerpo amado es la esencia de la patria y los besos son el fuego que alumbra los caminos y sueños de libertad, como la luz en los ojos de los hermanos soñadores y de los amantes y poetas revelando las infinitas fronteras de la verdadera alma de la patria. Antonio Torres * X desobediência que todas as ruas de todas as cidades ardam incendiadas no fogo da desobediência que todas as casas de todas as ruas de todas as cidades ardam incendiadas no fogo da desobediência que todos os bairros de todas as cidades de todos os estados do país ardam incendiados no fogo da desobediência que todos as palavras de todos os poetas de todas as cidades do país ardam incendiadas no fogo da desobediência Akira Yamasaki * XI exilar-se viver a contar os dias as iras os abusos não pressentidos deitar-se sobre a lápide do minuto imaginado esquecer-se do gólgota onde as pedras crucificam os pés acariciar o fascínio o sonho a busca de outra representação exilar-se do presente absurdo para a terra pela qual lutou. Lourença Lou * XII expulsa-me teto pátria que me pariu calou-me grito direito deserdado filha bastarda esquina barganha sobras trocados vida nos restos preço pago em foda dada por meu país Flavia D'Angelo * XIII Pau Brasil meu pai orgulhava-se de ser brasileiro País com cheiro de madeira de lei e cortava peroba figueiras gigantes no serrote seus braços eram só pão pra família dizia-me de olhos semicerrados estuda que a vida sem livros é árvore tombada fruto não dá mais cresci procurando sementes temendo árvores derrubadas por raios o futuro no chão sem chance de nascer as folhas escritas nascidas das árvores mortas meu pai não conhecia foram salvação para meus dias embora chore as dores de não saber o universo em minhas mãos inda creio nas crianças que perambulam pelas ruas sonhando letras feitas de suor e madeiras repaginadas Ivy Menon * XIV Eis que Dom José Couto aboia seus poetas, aninha, colhe e mostra seus versos, alerta os homens e acorda a Vida para a Vida que se nos apresenta no estupor do momento: O caldo grosso e fervente da História borbulhando no tacho de cobre na bocarra da fornalha, abastecendo o alambique dos dias, embriagando as ideias para a purificação das almas: Havemos de anular com nossa luz os monstros da escuridão; havemos de mostrar aos filhos a alvenaria que nasceu dos sonhos; havemos de arreganhar o coração ao fitarmos a cara do outro; havemos de dormir ao relento sob o manto seguro das estrelas; havemos de pagar com os braços o pão nosso de cada fome; havemos de molhar o chão com a saliva branda do nosso beijo; havemos de seguir o vento nas cantigas de comunhão; havemos de esquecer a justiça por absoluta falta de culpas; havemos... Havemos... Havemos de declamar com prazer as palavras que colhemos na seara farta dos poemas. Havemos de exercer o mundo como resposta à felicidade! Havemos de morrer como quem se lambuzou de Vida! Por tudo isso e por todos nós, do primeiro sêmen ao ventre livre da minha filha, resistimos, ____ RESISTO ____ Sou Da pátria Dos sobrevivos. Estou, Por agora, Sem mátria Que me acolha, Os Desejos, Mais do que a vida, São os meus ativos. Há cadáveres na velha estrada, Morrer é melhor Que voltar ao nada! Em meio a mentiras E outras verdades, Sonho e luto: -Pois que sou o veio aberto Entre a semente e o fruto. Wander Porto * XV LÁGRIMAS NA MINHA TERRA Minha terra não tem palmeiras Não há canto de sabiá As lágrimas que jorraram certeiras Com os que vieram além mar Vejo pelas calçadas Sem trégua, ainda a jorrar... Os ferrolhos machucando Aos que sonharam Progresso E a Ordem escravizando Os que ainda lutam por sucesso. No berço esplêndido, um brado retumbante À espera de um governo que se diz democracia E macula a terra com gesto profano O risonho céu e a mata verdejante Escorrem nos esgotos rotos a céu aberto E deitado no chão, sem rumo certo, Pedindo pão em um choro desumano Um cidadão sem futuro, clamando por alegria. Oh, Pátria amada! Serás culpada Dessa cruel falta de brios? Canta-se aos berros por uma nação sonhada Mãe fértil e produtiva Que permanece ainda altiva De belezas mil e tantos brasis Terra adorada! Tão desgraçada por filhos vis!... Marta Aguiar *