Voluntário ficou impressionado com a situação do local constatada nesta semana.| Foto: Jonathan Costa/ OA

Quem vê esta imagem não acredita que o Arroio Feijó já foi um lugar de lazer. Há 50 anos, o ambiente era outro; era através dele que os moradores mais antigos da cidade retiravam água para o consumo.

Segundo Janete de Lourdes, que mora há 30 anos na cidade, sua sogra, na época, lavava roupas no local. “Lembro que ela contava que muitas pessoas pescavam no arroio e até tomavam banho, era um ambiente muito limpo, diferente do que é hoje”, conta.

Devido às ocupações irregulares no local, o arroio tornou-se um depósito de lixo. Mas o problema não reside apenas nas áreas de ocupação irregular; também nos bairros planejados não há tratamento de esgoto e um devido destino do lixo. Outro problema é que a mesma canalização serve tanto para o esgoto doméstico quanto para as águas pluviais, o que dificultaria ainda mais um futuro tratamento dos efluentes.

O Arroio Feijó, localizado na Região Metropolitana de Porto Alegre, junto à divisa entre os municípios de Porto Alegre, Viamão e Alvorada, tem 15 quilômetros de extensão. Sua bacia mede 57 quilômetros quadrados. Possui nascentes perto da RS 040 – Sanga Dornelinhos (no município de Viamão) e desemboca no Rio Gravataí (que, por sua vez, escoa suas águas para o Guaíba, de onde é captada a água potável consumida pelas populações dos três municípios).

Conforme a Análise da Degradação Ambiental do Arroio Feijó, em 2007 a estimativa era que 50 vilas irregulares com aproximadamente 220 mil pessoas (38% em Alvorada, 35% em Viamão e 27% em Porto Alegre) habitavam a beira do Arroio Feijó.

A maior parte da população é de baixa renda, e, em alguns pontos, chegam a enfrentar problemas de alagamentos vinculados à existência de acúmulo de lixo no arroio. Atualmente, o Arroio Feijó é o maior contribuinte da poluição do Rio Gravataí. “Os moradores pensam que se trata de um valão, e jogam todo tipo de resíduos no local”, relata Janete. Segundo a análise, todos os braços ou afluentes do arroio estão poluídos.

Equipe é composta por membros do Rotary Club de Três cidades, além dos Anjos de Asfalto.

Aguapé luta para salvar leitos do Gravataí

O Rotary Internacional está em mais de 200 países e atua nas áreas de saúde, pobreza, fome, educação e meio ambiente. Em 2005, o grupo de Gravataí, Alvorada e Cachoeirinha montou uma iniciativa, o Projeto Aguapé, que visa a preservar o Rio Gravataí. Com a aprovação, as atividades começaram em junho de 2009, e, como têm duração de três anos, devem encerrar nos próximos meses. 

Eliseu Gonçalves da Silva, governador do Rotary de 2008 a 2009 e responsável pelo Projeto Aguapé, conta que o grupo faz um trabalho de conscientização focando sempre no público infantil. “O mundo tem que ser mudado com a mente, e são as crianças o nosso principal alvo para mudar a problematização da poluição ambiental”, enfatiza Eliseu.

Todo o projeto tem quatro módulos. O primeiro é o mutirão de limpeza que, em três anos, retirou 400 toneladas de lixo dos rios. O segundo é a plantação de brotos, que já fez nascerem mais de 30 mil mudas nas encostas do Gravataí.

Já o terceiro é o patrulhamento, que, em parceria com a Brigada Militar, utiliza um barco e duas motos para fiscalizar as margens do Rio. O quarto e último módulo é de educação e conscientização, que já atuou em 200 escolas nos três municípios, realizando cursos de desenho, redação e poesia, além de palestras.
Ao longo de três anos, foram mais de 500 formandos e mais de 100 mil crianças atingidas pelos projetos. Eliseu acredita que são elas a herança do Águapé.

Moradores também deveriam ajudar
Ida Brum, de 44 anos e moradora há 10 do Jardim Algarve, acredita que, se todos ajudassem, a situação não ficaria como está. “Sou carroceira e nem por isso jogo lixo em qualquer lugar”, desabafa.

Morando com o marido e mais três crianças, todos com menos de cinco anos, ela conta que há um depósito de lixo logo em frente à sua casa e é difícil inibir os vizinhos de realizarem o descarte. “Não quero me indispor com eles, mas tenho filhos pequenos e me preocupo com a saúde deles, apesar de nunca ter acontecido nada”, conta dona Ida.

Carmen Barcellos, futura presidente do Rotary Alvorada e coordenadora do módulo de limpeza urbana do projeto, diz que o problema é a ausência das fossas. Segundo a presidente, o Rotary está em busca de parcerias para que sejam instaladas fossas na região.

Focos crônicos de lixo na cidade
De acordo a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsu), Alvorada possui 70 focos crônicos de lixo. “Nestes locais, não adiantaria colocarmos um caminhão por dia, pelo fato de as pessoas descartarem lixo a todo o momento”, afirma o secretário da Semsu, Sérgio Coutinho dos Santos. O secretário explica que há seis pontos críticos de depósito de lixo irregular na cidade. São eles: o cruzamento da avenida Zero Hora com a avenida A do Jardim Algarve; a rua 43 no bairro Salomé; a entrada do bairro Umbu; a avenida Beira Mar; ao lado da escola Normélio Pereira de Barcellos, no bairro Umbu; e a entrada do Jardim Algarve, que fica ao lado de uma creche.

Segundo a Semsu, já foram colocados containers nos locais, mas que infelizmente foram incendiados. Conforme o secretário Coutinho, há coleta seletiva em todos os bairros da cidade, assim como a coleta orgânica. “Isso não é justificativa para que haja descarte de lixo em lugares impróprios”, justifica.

Em nota oficial à prefeitura, diz que faz trabalhos de conscientização focados nas crianças, para tentar reverter a situação ao longo prazo. Já o secretário Coutinho informou que a meta é inserir o tema “preservação ambiental” no currículo escolar.

Fonte: O Alvoradense / Aline Vaz