O Sopão do Etione já existe há oito anos.| Foto: Amanda Fernandes/ OA

Quem andar pelo bairro Formoza e perguntar por Etione Dornelles dificilmente encontrará quem procura. Etione, de 26 anos, é conhecido no bairro e na cidade inteira como Etione do Sopão. O jovem realiza um trabalho que pretende resgatar a cidadania de muitos moradores de rua e catadores de lixo de Alvorada, através de uma ação que parece muito simples, mas que faz a diferença em muitas vidas.

O Sopão do Etione já existe há oito anos e, como todo projeto, começou meio despretensioso, mas foi crescendo. O primeiro sopão servido numa manhã de domingo em 2004 alimentou 86 pessoas. Fato que causou surpresa ao jovem, mas que lhe garantiu a certeza de que a partir daquele momento deveria se dedicar àquela ação.
Desde o primeiro sopão ele percebeu que o investimento em traba-lhos sociais em Alvorada era necessário. “Chegou uma hora que eu me encontrei e percebi a importância de investir em projetos sociais”, afirma, mas relata também que o projeto não seria nada sem a ajuda dos conhecidos. Amigos, familiares e vizinhos participaram desde o início difícil do projeto. Foram doações de alimento, tempo e palavras de motivação para que a ideia de Etione se concretizasse.

Tudo o que existe hoje na Associação Beneficiente Sopão de Alvorada foi doado por parceiros. Amigos, vizinhos e pessoas que ouviram falar do projeto através da Rádio Farroupilha, uma das apoiadoras da ideia, garantiram o funcionamento da associação durante seus primeiros anos, e tiveram participação importante na formação da sede onde hoje funciona o primeiro restaurante popular de Alvorada.

Apesar de muito jovem, Etione sempre percebeu a necessidade que a população de Avorada demonstrava de resgate da cidadania. Por isso a ideia do restaurante. Depois de dois anos trabalhando em um ônibus levando o sopão para os bairros mais carentes, a sede, montada com o apoio da comunidade do bairro na Avenida da Pátria, número 76, serve almoços todos os dias da semana, garantindo a alimentação de cerca de 100 pessoas. “Tu podes observar que alguns [moradores de rua ou catadores de lixo] nem comem aqui dentro, preferem pegar a comida e ir lá pra fora por não se sentirem bem com o ambiente, por estarem sujos, mas isso não nos impede, com o tempo eles vão adquirindo confiança”, observa Etione.

Parceiro desde o começo do projeto, Clenio Silva da Costa, o Sapateiro, como é conhecido no bairro, conta que nem toda doação vem como dinheiro ou gênero alimenticio: “As pessoas podem doar o tempo, também faz a diferença.”
Aos sábados, Sapateiro e sua familia ficam responsáveis pelo churrasco comunitário organizado pela associação. O voluntário foi o segun-do sopeiro do projeto, e hoje se orgulha ao dizer que a família não reclama mais de suas ausencias aos sábados e domingos quando ele é um dos responsaveis pelos almoços. Hoje, a esposa e suas filhas também ajudam a associação.

Sonho de expansão

Etione e os 15 voluntários pensam em expandir o projeto a outros bairros. O restaurante popular é uma vitória, mas ainda é pouco, nem todas as pessoas conhe-cem o trabalho deles e muitas vezes a falta de recursos cria barreiras. Porém, as barreiras não os impedem de sonhar.Hoje, o valor de R$ 2,99 cobrado pelos almoços garante as contas do estabelecimento.

Aluguel, higiene, luz, água e gás saem dos almoços vendidos durante a semana. Aos sábados há o churrasco comunitário, por R$ 5. Aos domingos o tradicional sopão totalmente gratuito garante a refeição de familias inteiras.
A meta é passar a cobrar R$1,99 pelas refeições, quem sabe abrir um outro restaurante em algum bairro ou retomar os projetos itinerantes e percorrer os bairros mais carentes levando alimento a quem precisa. As ideias são muitas, mas falta apoio, às vezes faltam mantimentos, mas eles sempre conseguem. “O que não podemos é fechar”, afirma Etione.

Fonte: Amanda Fernandes/OA