Dentro das galerias, quem manda são os presos. Situação de degradação atinge também as galerias inauguradas em 2009 | Foto: Ivan de Andrade / Palácio Piratini / OA

Tem que morrer! Eu ouço isso direto. Esses dias estava no ônibus e o cobrador e um rapaz comentavam que eles mereciam estar naquele lixo e que devem morrer lá dentro. Aí eu fiquei quieta, vou falar o quê? Cada um tem uma maneira de pensar. Se o meu filho não estivesse preso, acho que eu pensaria desse mesmo jeito, porque realmente dá um pouco de vergonha. Infelizmente nós não temos o apoio da sociedade.”

Este é o depoimento de uma mãe que chora ao ver o seu único filho preso há dois anos no Presídio Central de Porto Alegre (PCPA) por furto. Ela faz parte dos 1.400 visitantes que os detentos recebem semanalmente. Rotulado como o pior presídio do Brasil, o PCPA passa por um momento crítico desde sua criação, em 1989. Com obras alternativas para desafogá-lo se arrastando há anos, a penitenciária apresenta uma grande degradação estrutural.

De acordo com a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), são 4,5 mil presos em um espaço para pouco menos de dois mil. Superlotado, o prédio padece pela falta de manutenção.

A população carcerária do complexo conta com 259 presos oriundos de Alvorada. Já da Região Metropolitana são 1.937, cerca de 40% do total.  Algumas celas que deveriam abrigar 12 pessoas recebem mais de 30. A superlotação faz com que as portas das celas permaneçam abertas na maior parte dos pavilhões.

Masmorra

Um morador de Alvorada que prefere não ser identificado ficou preso por quase dois anos no Central. Ele conta que há ausência de camas para todos os presos, que se amontoam no interior das celas em colchões de espuma, e que as infiltrações nas paredes são visíveis, inclusive nas alas mais novas.

“O lixo é lançado a céu aberto, onde escorre esgoto o dia inteiro. Passei quase dois anos naquela masmorra, só quem passou por lá sabe o que é aquilo lá dentro. A sociedade acha que somos animais, mas digo que, do jeito que os presos são tratados, não tem como sair de lá regenerado”, revela. O ex-detento não consegue um emprego desde que saiu do Central, há um ano e meio.

 “Quando eu estava preso, sofri muito. É triste sobreviver em paz lá dentro. Eu ficava de madrugada vendo as fotos penduradas na parede, mas, ao mesmo tempo, eu agradecia pelas visitas dos familiares e amigos, me sentia privilegiado por isso”, desabafa.

Na administração do Presídio Central existe apenas um médico que, por dia, atende mais de 15 detentos. Segundo o depoimento do ex-presidiário, no entanto, para que ocorra esse atendimento é necessário uma solicitação do “plantão da galeria”. O “plantão” é um dos presos que faz toda a intermediação entre os detentos e a administração. Um verdadeiro retrato da ausência do Estado na comando do sistema prisional.

“Da boca da galeria para dentro, é 100% de controle dos presos”, afirma o juiz Sidinei Brzuska sobre o PCPA. A partir de 1º de maio, a instituição será interditada temporariamente. Réus já condenados não ingressarão mais na unidade prisional.

A decisão se estende a pessoas presas em flagrante ou que tiverem prisão preventiva decretada. Nesses casos, os detidos serão mantidos por 12 horas no setor de triagem e serão transferidos pela Susepe para outras unidades prisionais.

Fonte: Aline Vaz / O Alvoradense