Dona Glória (direita) se tornou oficineira de crochê na Diaconia Madre Teresa de Calcutá | Foto: Divulgação / OA

Por 34 anos Maria da Glória Martinelli trabalhou fazendo faxinas em casas de família. Assim ela ajudava o marido e criava as três filhas. Aos 51 anos, no entanto, sofreu um Acidente Vascular Cerebral. Além da dificuldade em realizar as atividades necessárias para uma boa limpeza, ela ainda desenvolveu um enorme medo de sair de casa. “Minha memória ficou prejudicada e eu achava que ia me perder se fosse muito longe. Então preferia ficar por perto, onde as pessoas me conheciam e poderiam me trazer de volta, caso eu esquecesse do caminho”, conta.

A solução foi passar a recolher garrafas PETs com os vizinhos do bairro Sumaré, onde mora. Foi nesse período que o marido ficou doente e eram muitos os dias de internação e de companhia no hospital. “Eu sabia fazer crochê, mas só o básico”.

Por estar internado e ter perdido a data da perícia do auxílio doença, houve épocas em que a renda do casal eram apenas as garrafas. A solidariedade dos conhecidos surgiu, com as pessoas levando as garrafas até sua casa, sem que ela precisasse percorrer as ruas em busca de material para vender à reciclagem.

Em busca de conhecimento nos trabalhos manuais, ela chegou à Diaconia Madre Teresa de Calcutá, da Paróquia São José Operário, onde fez o curso de crochê. Interessada no assunto, e praticando muito nos longos períodos de internação do marido, ela foi em busca de aperfeiçoamento, que encontrou no Centro Humanístico da Igreja Santo Antonio.

Hoje, aos 60 anos, ela é oficineira na Diaconia, onde ensina e aprende muito de crochê e sobre a vida. O marido faleceu há alguns anos, as filhas estão casadas e Glória segue morando na rua Salgado Filho, perto dos vizinhos e ainda recolhendo garrafas, que seguem sendo atiradas em seu pátio pelos conhecidos.

Quanto à ajuda, vive com a pensão do marido, e está prestes a se aposentar. A cesta básica que recebia da Diaconia ela dispensou quando ficou viúva, “não é justo que eu, sozinha, receba tudo aquilo enquanto há famílias inteiras que precisam muito mais”, avalia ela que, quando necessário, pede um quilo ou dois de algum alimento que possa lhe faltar, no que é prontamente atendida.

E foi assim também com o Bolsa Família, que ela recebeu apenas por alguns meses. “Como eu já ia fazer 60 anos e me aposentar, resolvi abrir mão do benefício para alguém que realmente precise”, fala essa alvoradense de coração, que tem a solidariedade não apenas como lema em sua vida, como também consequência de seus bons sentimentos.

Fonte: Mariú Delanhese / O Alvoradense