Seu José e mais de cem cães ficaram dentro de um ônibus durante o temporal | Foto: Jonathas Costa
Seu José Damião e mais de cem cães ficaram dentro de um ônibus durante o temporal | Foto: Jonathas Costa

A tragédia transforma vidas. Em meio à calamidade que assolou a cidade em julho e que segue castigando muito alvoradenses, há histórias de luta, solidariedade e superação.

São famílias que perderam tudo, mas seguem unidas e dispostas a recomeçar. Há aqueles que não têm para onde voltar e ainda os que, mesmo sendo vítimas, encontram forças para ajudar. Uma dessas histórias é a de José Damião Santos, que também teve a casa invadida pelas águas, mas que primeiro se preocupou com seus animais.

Morador da rua Americana, a uma quadra do Arroio Feijó, conta que “abriu as porteiras” de casa quando percebeu que as águas avançavam rapidamente. Morando no mesmo terreno que a mãe, com mulher e dois dos cinco filhos, ele criava ali cerca de 140 cachorros, muitos deles recolhidos das ruas.

• ASSINE: Receba a edição impressa do jornal O Alvoradense em casa

Após o desespero inicial, conseguiu recolher alguns dos seus e muitos dos cães de vizinhos e outros tantos que circulavam pela rua, os abrigando em um velho ônibus. “Se eu não soltasse, todos teriam morrido afogados.”

Dali ele foi rebocado para o pátio da Associação de Moradores da Formosa e hoje corre o risco de ser retirado de lá. Não tendo ainda um destino para ele, a família e os seus mais de 100 melhores amigos.

Vida
José conta que nasceu em Esteio, mas chegou ainda pequeno na rua Americana. Ao longo desses anos sempre enfrentou as cheias do Feijó, “mas esse ano precisei de ajuda para os meus bichos”.

Aos 48 anso, tem filhos de 32 e 25 anos, casados, e com a atual esposa um rapaz de 20, uma menina de 15 e um pequeno de 11 meses. É carregador autônomo na Ceasa, ou seja, puxa carrinho, como ele mesmo explica.

A paixão pelos animais surgiu há 15 anos, quando um cachorrinho doente lhe deu muito trabalho e o fez perceber que havia muitos iguais àquele precisando de ajuda e soltos pelas ruas de Alvorada.

Ultimamente, dos cerca de R$ 150 que tirava por dia, R$ 100 eram para os animais e o restante para a família. A ajuda externa sempre foi escassa. Em todos esses anos conseguiu apenas uma doação. Mas, como diz o dito popular, há males que vem para o bem. Com a mobilização que as cheias provocaram, já foram mais de 40 os animais encaminhados para famílias de diversos pontos do estado.

José compartilha amos aos animais com a família | Foto: Jonathas Costa
José, o amor aos animais e a família | Foto: Jonathas Costa

O caso mais interessante foi de uma senhora de Farroupilha que adotou uma cadelinha paraplégica. “Os doentes e com problemas, foram os primeiros que encontram um lar”, comemora José. Há também muitos cães que reencontram seus donos, já que ele foi recolhendo todos que encontrou pelo caminho.

Por meio de doações, chegam a todo momento sacos de ração que vão se avolumando no ônibus. Houve a necessidade, inclusive, de armazenar muitos deles na casa de conhecidos e voluntários. “Disseram que estou vendendo o que ganhei, mas não é verdade. As vezes o que faço é trocar uma ração cara por dois ou três sacos da mais barata, daí sim! Até porque meus cachorros não gostam dessas rações muito elaboradas”. E compara: “Tem gente que chega aqui que precisa mais do que eu. É como uma senhora que mora aqui perto, muito pobre e com mais de 10 cães. Dei um saco de ração pra ela!”.

Ainda aconteceram doações de móveis e eletrodomésticos, que ele pretende dividir com os familiares. “Também minha mãe e irmãos perderam tudo”, lembra ele.

Quanto aos animais, estão todos para adoção, e serão castrados graças também a doações. Alguns que estavam no terreno da associação já tinham donos, que os visitam regularmente, mas que esperam a casa estar preparada ou o animal se acostumar com o novo dono. Há, ainda, os filhotes que correm pelo pátio para desespero da mãe eos pitbulls que saem de perto sempre que acontece uma confusão.

Meta
Para José o próximo passo só pode ser a compra de um sítio onde possa viver com a família e seus cachorros. Ele já possui R$ 11 mil que foram doados por centenas de anônimos e alguns bons amigos que conheceu em meio à tragédia.

Mesmo que volte à sua casa, sabe que terá que encontrar um outro lugar, pois a área é irregular e deve ser desocupada em breve.

“Não sei o que o futuro me reserva, mas vou seguir juntando cachorro. Essa é a minha missão!”, sentencia.

Quem quiser ajudar José em sua missão de “cachorreiro” pode ligar para o (51) 9333-9068 e conferir o que é necessários no momento para ele, sua família e animais, ou ainda realizar um depósito para Jose Damião dos Santos Ag:1430-3 C/c: 120.000-3 Banco do Brasil.

Fonte: O Alvoradense