Brigadianos que trabalham no centro de operação do 24º BPM de Alvorada têm que lidar com os mais de setenta trotes diários.Aline Vaz/ OA

O telefonista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) recebe uma chamada. Do outro lado da linha, uma pessoa, desesperada, avisa sobre um acidente e pede que a vítima seja socorrida. A equipe é mobilizada. Tudo em vão. O alerta era falso, o desastre não existia.

Histórias como essa se repetem todos os dias em todos os serviços de emergência. A Brigada Militar (BM) de Alvorada registra um trote a cada cinco minutos. São em média 180 ligações recebidas pelo número de emergência 190 todos os dias. Dessas, pelo menos 70 são trotes, 61% do total diário. Esta é uma atitude que dificulta o trabalho dos agentes de segurança pública, como relata o Tenente Coronel da Brigada Militar, Julio Cezar Rocha. “Uma pessoa que passa um trote pode prejudicar outra que necessita do serviço, além de cometer um crime que pode gerar ocorrência na delegacia”, aponta.

De acordo com o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (CIOSP), que compreende os serviços da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Civil, de 1 milhão e 500 mil ocorrências registradas em 2010, 330 mil foram consideradas como trote.

Nos dois primeiros meses deste ano, o serviço foi prejudicado com 54 mil trotes entre as 237 mil ligações recebidas, o que corresponde a 23% do total. Só em Porto Alegre, o custo dos trotes telefônicos ao 190 é de quase R$ 225 mil por mês, segundo estimativa da Brigada Militar.

A situação na Sala de Operações dos Bombeiros em Alvorada também é preocupante: de cada dez ligações recebidas, oito são trotes, um índice de 80% do total diário. Na Capital, a cada quatro ligações uma é trote.

Grande Porto Alegre Lidera trotes ao SAMU no país

De acordo com um estudo do Ministério da Saúde o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), do Rio Grande do Sul, recebeu 1,707 milhão de chamadas enganosas em 2010, somando com os números de Porto Alegre.

Três em cada quatro ligações para o SAMU em todo o Estado foram trote.
Com estes dados, os gaúchos alcançaram, em números absolutos, um indesejado primeiro lugar no país em chamadas falsas.
O índice é muito superior à média do país, que está em torno de 35% – das 7,2 milhões de chamadas recebidas pelos 130 Samus do Brasil, 2,7 milhões eram falsas.
A estatística aponta um aumento de 50,36% nos gastos do Ministério da Saúde somente com internação de vítimas do trânsito no período de 2000 a 2006. Muitas destas poderiam ser melhores e mais rapidamente atendidas, não fossem os trotes.

Em Alvorada durante um mês, o SAMU-SALVAR foi prejudicado com 98 trotes entre as 140 ligações em média recebidas. O prefeito Carlos Brum lamenta os números, “O serviço está realmente atendendo a população com qualidade, o que se lamenta é o número elevado de trotes que o 192 recebe, cerca de 70% das chamadas”. A central de atendimento possui identificador de chamadas, o que vem ajudando a evitar deslocamentos desnecessários em prejuízo de reais necessidades de socorro.

Crianças são as principais autoras das ligações

A crianças são as maiores responsáveis pelos trotes. Não por acaso os horários em que mais acontecem este tipo de ocorrência coincidem com a hora do recreio ou com a saída de escolas (10h, 12h, 15h e 17h).

No caso dos menores, os pais estão sujeitos à responsabilização penal. “As ligações falsas aumentam no período em que as crianças não estão nos espaços de ensino, por isso alertamos aos pais que controlem o acesso ao telefone residencial e ao celular”, diz Comandante do Corpo de Bombeiros de Alvorada, Antônio Ubiratan Benites. Além de crianças, o SAMU recebe trotes de adolescentes, geralmente elaborados com dramatizações e até mesmo de adultos.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde os adultos usam o 190 para trotes, estão entre os temas mais frequentes: pessoas caídas na rua, xingamentos e cantadas aos operadores da central. Para quem realiza este tipo de brincadeira de mau gosto, é bom saber que o artigo 266 do Código Penal Brasileiro prevê detenção de um a três anos e multa àquele que perturbar o serviço telefônico.
Em geral, a pena é substituída por prestação de serviços à comunidade, como lavar ambulâncias do SAMU.

Vale a conscientização de que trotes prejudicam, e muito, a vida de toda a população.

 

Fonte: Aline Vaz / O Alvoradense