Placa foi doada por uma empresa de Porto Alegre / Foto: Divulgação / OA

Por suas características geológicas, a Lagoa do Cocão, localizada ao longo da avenida Frederico Dihl, já chama a atenção. Ela é uma das lagoas naturais encontradas em morro no Estado, onde há apenas duas vertentes de água doce contínua que nunca param de jorrar no Rio Grande do Sul, uma em Cambará do Sul e a Lagoa do Cocão.

Ainda que considerada um dos cartões postais da cidade, há alguns meses apresentava aparência de abandono, para tristeza de muitos, principalmente os que moram no entorno.

Contudo, um alvoradense preocupado com o meio ambiente e que há vários anos trabalha de forma voluntária em ações de preservação, passou a se dedicar à lagoa.

Paulinho Figueiredo é o mais novo amigo da Lagoa do Cocão. Ele é proprietário de uma casa na rua Otávio Rocha há cerca de 10 anos, mas morou por pouco tempo no endereço. Recentemente voltou a ser vizinho da Lagoa e, já no primeiro final de semana, não suportou o abandono, com muito lixo e cheiro de carniça e resolveu agir.

Defensor do meio ambiente há anos, com ações em diversos locais inclusive fora do Estado, usou sua experiência para analisar a área, realizar levantamento dos resíduos e perceber que uma ação era necessária e urgente. Ele é Guarda Ambiental Voluntário no Morro dos Macacos em Santa Catarina e no Passo de Torres.

“No primeiro final de semana contei 470 galinhas, já podres, colocadas ao lado das árvores, que sofriam com a queima de velas junto a seus troncos”, conta Paulinho. Além disso, encontrou pedaços de televisões e máquinas de lavar, sacolas de lixo… “Em todas as vezes que passei por aqui, nunca tinha visto a lagoa tão suja”.

Ajuda
A primeira conversa foi com os vizinhos, mas poucos se mostraram interessados. “Apoiaram mais não ajudaram. Só o Jorge, do bar da Lagoa, se propôs a auxiliar”, lembra Paulinho. Até que falou com os jovens da Igreja Ministério Adoração, que haviam pensado em realizar uma limpeza, mas ainda sem data. Assim, ainda naquele final de semana, o último de agosto, com o custo do aluguel de um container, aconteceu o primeiro mutirão.

No domingo seguinte, sem dinheiro para mais um container, os resíduos foram armazenados em latões de lixo doados, ainda com a ajuda do pessoal da igreja.

Limpeza acontece também na água / Foto: Divulgação / OA
Limpeza acontece também na água / Foto: Divulgação / OA

Smam
Foi quando Paulinho resolveu entrar em contato com a Prefeitura, através da Secretaria do Meio Ambiente (Smam) e do Horto Municipal. O objetivo era conseguir os containers e conquistar apoio, pois não bastava limpar, havia a necessidade de coibir, zelar e fiscalizar.

Na Smam o protetor descobriu que, desde 1997, a Lagoa do Cocão passou a ser uma Área de Proteção Ambiental / APA, pela Lei Municipal 853/97 “que só havia no papel. A Prefeitura está em débito com a Lagoa do Cocão há quase 20 anos.”

“Foi quando pedi que a Secretaria fornecesse as placas verdes, obrigatórias em todas as Áreas de Proteção Ambiental”. Mas a informação foi que não havia como fazer o material, por falta de orçamento em época eleitoral. Contudo, passaram a fornecer os containers e autorizaram a ação de Paulinho na área, inclusive a confecção das placas, doadas por uma empresa de Porto Alegre.

Ele conta ainda, com a ajuda do irmão que é técnico Ambiental e em Química, e de alguns moradores, frequentadores e simpatizantes da causa, em um total de 10 pessoas. Há ainda a vigilância, que conta com o apoio da Brigada Militar e da Guarda Municipal “o que incomodou muita gente”, lamenta, contando que chegou a ser ameaçado “por fazer a coisa certa”, o que o fez se mudar para outro bairro da cidade.

Projeto
Sobre o projeto de recuperação da Lagoa do Cocão, que deve ser patrocinado pela Corsan em contrapartida às obras ocorridas na cidade durante o último ano, Paulinho diz não ter muitas informações. Só de que estaria aguardando os pareceres da Fepam (estado) e Smam (município).

O jornal O Alvoradense entrou em contato com a Corsan e obteve a seguinte posição: “O projeto da Lagoa do Cocão é de responsabilidade da Prefeitura, que é quem o deve desenvolver. Conforme convênio firmado, o município precisa ainda aprovar e adequar os projetos, e, licitar as obras. Compete à Corsan o repasse de recursos no valor aproximado de 1 milhão, conforme medição de andamento das obras”, informa Felipe Tamanini, engenheiro Civil da Companhia.

Paulinho é protetor voluntário em SC / Foto: Divulgação / OA
Paulinho é protetor voluntário em SC / Foto: Divulgação / OA

SOS
Hoje o trabalho conta com uma página no Facebook, SOS Lagoa do Cocão e conta com vários seguidores. Reconhecendo que a cidade possui muitos problemas referentes à infraestrutura e segurança pública, acredita que o meio ambiente também mereça a atenção de todos, principalmente das autoridades. “É uma pena que a cidade não dê o apoio necessário a nossa Guarda Ambiental Voluntária. Em outras cidades, até mesmo Áreas de Proteção Ambiental são entregues a voluntários ambientais”, conta ele, ressaltando que seu trabalho na Lagoa foi bem visto por outras cidades, tendo recebido convites para ajudar e dar ideias de preservação.

“Fiquei muito lisonjeado pelo pessoal da Reserva do Taim me convidar para conhecer o lugar, Também fomos convidados para conhecer a Reserva do Serrado, terra dos lobos guarás, em Minas Gerais. Tudo reflexo do nosso trabalho no Cocão”. Ele salienta que hoje Alvorada conta com apenas três fiscais voluntários, que combatem cortes ilegais, desmatamentos em áreas de proteção, descarte de resíduos em áreas verdes… “Mesmo assim nosso trabalho, e daqueles que nos apoiam, está repercutindo em todo o País, além de manter a Lagoa do Cocão preservada para os alvoradenses.”

Fonte: O Alvoradense