Área em Porto Alegre estava completamente alagada | Foto: Jonathas Costa/OA
Área em Porto Alegre estava completamente alagada | Foto: Jonathas Costa/OA

Era tragédia anunciada. O rompimento do dique em Porto Alegre e a consequente enxurrada que pegou os moradores das vilas Elisabeth, Brasília e Asa Branca desprevenidos durante a madrugada deste sábado (31) na Capital, era um risco concreto, e em parte desprezados pelas autoridades dois dos lados do Arroio Feijó.

Durante a enchente de 2012, o bairro Americana, na zona Norte de Alvorada, ficou alagado por quinze dias. Na ocasião um grupo de moradores rompeu manualmente o dique que fica em um terreno próximo à Fiergs, em Porto Alegre. Foi a solução para o drama que parecia não ter fim naquela ocasião.

Quando o nível da água começou a subir na noite do último sábado, os moradores olhavam apreensivos pelas janelas e temiam pela repetição da tragédia. Erraram. A enchente deste ano surpreendeu ao conseguir ser ainda pior do que a do ano anterior.

Com o nível da água subindo a cada dia durante uma semana, a indignação de quem perdeu, novamente, tudo o que tinha, cresceu ainda mais rápido. Já na quarta-feira um grupo ateou fogo sob a ponte da Americana. No dia seguinte foi a vez de bloquear a avenida Assis Brasil próximo ao dique, para alertar a prefeitura de Porto Alegre que parte do problema deles tem origem na Capital. Na sexta-feira o bloqueio foi na Getúlio Vargas, no Centro de Alvorada.

Uma bomba foi instalada na tarde da quinta-feira pela Corsan para levar a água represada na imensa área ao lado da Fiergs para dentro do canal, a caminho do Rio Gravataí. Não surtiu efeito. Durante a sexta-feira os alagamentos continuaram a subir nas ruas dos bairros Americana e Nova Americana.

Diferente do ano passado, quando a relação entre a prefeitura e o proprietário do terreno foi tumultuada, desta vez a alternativa foi pelo diálogo. “Ele está aberto para a conversa e se mostrou bastante compreensível”, garantiu o prefeito Professor Serginho durante a semana. A intermediação, no entanto, ocorreu a partir da segunda-feira, quando a água já tomava as casas de muitos moradores, desprezando um histórico que indicava que a negociação deveria ter começado meses antes.

Entre conseguir firmar a parceria com o proprietário e trazer a bomba d’água, que estava na Serra, foram três dias. Demais para quem já não suporta mais a rotina de alagamentos.

Os moradores garantem que na tragédia anterior, o prefeito da Capital esteve na área do dique e verificou o fechamento clandestino da barragem. Procurado pela reportagem d’O Alvoradense, desta vez a prefeitura de Porto Alegre encaminhou o problema para o diretor do Departamento de Esgoto Pluviais (Dep), Tarso Boelter.

Veio a surpresa. Diferente da aparente indignação demonstrada no ano passado pelas autoridades da Capital, desta vez o lacre do dique não pareceu incomodar. Boelter reconheceu que as comportas foram lacradas para evitar o alagamento de regiões da zona Norte de Porto Alegre, como a Vila Nazaré, localizada no outro lado da avenida Assis Brasil.

Segundo ele, a abertura para o escoamento do fluxo de água, centralizado na região, prejudicaria com inundações pelo menos 20 mil pessoas na Capital. “Não há possibilidade para a abertura das comportas. Isso apenas transferiria o problema para Porto Alegre”, afirmou.

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Em reunião com técnicos da prefeitura de Alvorada, a solução encontrada pelos dois departamentos foi a instalação da bomba para o inicio do escoamento. A medida não funcionou. “Essa bomba tem o efeito mais psicológico do que prático”, revelou uma fonte da prefeitura que acompanhou de perto o processo para conseguir trazer o equipamento para a cidade.

Enquanto a bomba tentava, em vão, reduzir o nível da água, novamente o dique foi aberto durante a madrugada. A prefeitura de Porto Alegre diz que vai investigar o que levou ao rompimento. O que muda, desta vez, é que o volume de água no lado de Alvorada é muito maior do que em 2012. Ao abrir a barragem, a água tomou por completo as vilas da Capital, demonstrando que quando as autoridades não conseguem chegar a um acordo, a solução vem pelo caminho mais rápido, e invariavelmente, mais traumático.

Fonte: Jonathas Costa e Amanda Fernandes/O Alvoradense