Quando a alegria extrapola e sai por aí a fervilhar, sem um mínimo de disciplina que possa nos convencer, costumamos dizer que ficou somando as pequenas estridências desencontradas e, enoveladas como se fossem ganchos presos de forma contínua, formam uma corrente, isto é, a alegria vira folia. Afirmemos às suas nuances o quão significativos são os valores atribuídos a ela. Valores que vão, repetindo o chavão para tentar deixar mais claro, “dos oito aos oitenta”. E se essas alegrias enoveladas estiverem tomando como referências alguns objetos positivos ou negativos, voltamos ao lugar comum: são “outros quinhentos”.

Alegria transformada em folia se relativiza diante da escala de valores de cada um. Uma alegria que entristecida para um, no fundo pode transformar-se em folia para o outro – sob o ponto de vista do outro. Essa pluralidade de construções é que afirmam isso ou aquilo sobre algum assunto corriqueiro ou evento de qualquer origem. Posições que se consolidam feito espeques cravados na terra: imutáveis e inflexíveis. Opinião pedra difícil de esfarelar. Seus contornos buscam qualquer viés que aponte o caminho do objetivo mínimo a ser atingido. Até aqui convergimos para um modo comum de refletir, ou é o senso comum que, insistente, procura as brechas das nossas línguas para que possamos, diante de uma suposta vulgar necessidade, visualizarmos o objetivo a ser atingido: desconstruí-lo para reorganizá-lo em outro formato, como senso crítico.

Perceberam como se pode ir levando alguma coisa sem que se dê conta de que a tortuosidade do caminho pode nos deixar à margem do que pretendemos encontrar? Ou ficaremos à margem ou inventaremos outras margens, tantas quantas forem necessárias e dependentes daquilo que nos queiramos permitir avançar. A pluralidade e a diversidade são isso: variados caminhos, variados pontos de vista, variadas soluções, variadas recusas, variadas construções (todos inimagináveis, até que se constituam). Assim trilhamos pela pluralidade sob suas diversas denominações. Uma delas chama-se democracia, cujo pleno convívio pode enriquecer o nosso dia-a-dia. Se esse enriquecimento está revestido de bondades referendadas pela nossa origem judaico-cristã ou não, se está destituído de signos religiosos ou não, se está investido de esperança ou não, se está representando esse ou aquele segmento do pensamento social ou não, inicialmente não terá a menor importância.

A importância maior desse enovelamento de alegrias e folias é que a luta contínua irá transformar o indivíduo e, como consequência, o seu entorno. Essa transformação poderá ser o suporte ao bem maior que é o bem coletivo. Esse sim irá exigir de nós o máximo de urbanidade entre as relações sociais para que possamos crescer juntos. A urbanidade aqui mencionada contempla alguns conceitos como o significado da palavra respeito e o exercício do mesmo em todos os níveis possíveis, dessa nova convivência inspiradora.