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A fome e a vontade de comer

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A fome e a vontade de comer

Lembro que, nos tempos de estudante universitário, houve uma época em que era discussão obrigatória pontuar sobre os efeitos perversos das políticas neoliberais. Movimento inspirado nos Chicago Boys e implantado no Chile (e não na China, como erroneamente disse o senador que um dia fora cara-pintada), algumas das principais medidas eram o aplastamento de greves, a retirada de direitos socialmente adquiridos, especialmente na legislação trabalhista e, principalmente, na presença maciça das terceirizações – um fenômeno que era visto como um correlato de privatização do serviço público, pois o ingresso no mesmo se dá através de concurso público.

Um ano após concluída a licenciatura, fiz o concurso para professor de estudos sociais e, meses após, começo a atuar em sala de aula, na escola Paulo Freire, junto ao Serviço de Educação de Jovens e Adultos – aliás, foi nessa escola que conheci a Sabrina Sebaje, na época secretária no turno da tarde. Foi lá que fui muito bem recebido pela melhor diretora que já tive na vida, a competentíssima professora Fabíola Borgias, atual diretora do CEMAE. Também foi nessa escola que, anos após, conheci uma das pessoas que mais admiro, o Rodrigão. Já que aquele ano era de implantação desta modalidade, lembro que nos era oferecido (junto a outros professores na rede) muitas oportunidades e encontros de formação. E era ano de eleições municipais…

Também lembro que o discurso-padrão era o de que a educação na cidade sofreu, na gestão municipal que estava por encerrar, profundas transformações: salários pagos em dia, muitas obras estruturais, merenda de qualidade nas escolas, e por aí vai. É fato que a educação institucionalizada, de 1998 para cá, sofre saltos qualitativos, e que as causas estão relacionadas à gestão municipal e, principalmente, ao ingresso de verbas via FUNDEF.

No entanto, um fenômeno me deixava intrigado: a presença das terceirizações, sobretudo na cozinha e limpeza das escolas. Afinal de contas, e considerando que elas são coisa do capeta (pelo menos em teoria), são coisas de direitosos e representavam, na época, a privatização da educação, como podem essas terceirizações terem prosperado em um governo “de esquerda”, sem a mínima contestação, seja pelo próprio magistério, pelas oposições ou até mesmo pelo sindicato dos municipários?

Só fui ter a resposta após três anos: a principal alegação para as terceirizações reside no fato de que, após o concurso, a maioria das serventes-merendeiras foram entrando, ao longo do tempo, em licenças saúde e com delimitação de função. Nas escolas, isso teria gerado uma crise de paralisia, pois as escolas contavam com funcionários que, devido a lesões do esforço repetitivo (ou bursite, entre outras), não podiam varrer ou ariar panela. A resposta veio de pronto: as terceirizações. Afinal de contas, se o funcionário tiver algum problema de saúde, a empresa terceirizada que assuma os riscos e, se for o caso, substitua os mesmos nas escolas. Em momento algum me foi relatado, por exemplo, que na época as condições de trabalho nas escolas eram precárias, e das/os serventes-merendeiros eram exigidos trabalhos braçais ao máximo, a ponto de inviabilizar a saúde – apenas esses profissionais alegam isso.

Hoje tenho nova hipótese para explicar alguns dos motivos para as terceirizações: trata-se da fome e a vontade de comer – afinal de contas, hoje são raríssimos (ou, pelo menos, a frequência é bem menor) os casos de efetivas doenças entre os terceirizados nas escolas. Na prática, o preenchimento das vagas de terceirizados cumpre função eleitoral, já que parcela considerável são indicações da vereança. Para a Prefeitura Municipal é um negócio da China, pois quaisquer atividades de formação, quando ocorrem, são bastante pontuais. E hoje o cargo de servente-merendeiro é um cargo em extinção…

De qualquer forma, é bizarro que os professores grevistas e movimento sindical no estado seja contrário ao Projeto de Lei nº 44, sob alegação de privatizar a educação institucionalizada no estado. Mas mais privatizada do que está, repleta de contratos emergenciais, assumidamente uma modalidade de trabalho precário? Os professores hoje grevistas, e que atuam nas redes estadual e municipal de Alvorada mesmo, nada teriam a dizer sobre as nossas terceirizações? E mesmo que se demonstre que é justamente o exagero nas terceirizações, muitas vezes feitas para saciar certos protagonistas políticos, o que impede qualquer perspectiva de melhorias salariais significativas para o magistério municipal? O fato é que não há dinheiro para tudo. Triste cenário.

Em tempo (1): de onde menos espera é que vem surpreendente notícia. Os governantes de Água Branca, município do sertão paraibano com pouco menos de dez mil habitantes e extensão territorial três vezes maior do que Alvorada, sofreu queda de metade de seu orçamento. Diante de grave crise econômica, o um vereador tomou a iniciativa de propor a redução dos salários da vereança, secretariado e do prefeito. O prefeito (PSB) e o Presidente da Câmara (DEM) compraram a ideia e perceberam que é viável: cada um dos nove vereadores receberá R$ 880 reais mensais, e o prefeito, o dobro. Toda a verba será destinada para obras do Executivo Municipal em prol de infraestrutura em regiões carentes. E foram mais longe ainda: o vereador que se ausentar em sessão ordinária ou extraordinária sem justificativa legal sofrerá redução de dez porcento de seu subsídio. Que humilhação, vereança de Alvorada e senhor prefeito…

Em tempo (2): se não é para fazer o debate, sugerir alterações em alguma proposta, então qual é o sentido de se fazer uma audiência pública? Na calada da noite, nossos nobres aprovaram a lei 019/2016, e que finalmente institui o Sistema Municipal de Educação. Até aí, tudo bem não fosse um detalhe: tudo o que foi debatido na audiência pública proposta pelo vereador Juliano Marinho (PT) foi solenemente ignorado – a patrolagem incluiu todas as sugestões da professora Regina Scherer, que pontuou sérias lacunas no projeto de lei. Não é de estranhar a passividade do Conselho Municipal de Educação (o mesmo que silenciou diante da agressão física a uma professora da rede, diga-se de passagem). E o que dizer da vereança, que mais uma vez aprovou uma lei que coloca o CME em posição de subalternidade? Está bastante claro que oposição não há em Alvorada. E o que é pior: não há limites para a chinelagem.

Em tempo (3): por falar em chinelagem, o vereador Cristiano Schumacker (PT) protocolou convocação para a direção do Hospital de Alvorada explicar os problemas que o hospital vem enfrentando, e que o levou à superlotação da pediatria. É verdade que o governo do estado vem pisando na bola, ao não cumprir com os devidos repasses financeiros. E a data para o espetáculo não está marcada, mas sugiro que, para abrilhantar o “evento”, se faça a leitura (ou, pelo menos, que seja apresentado um resumo) do relatório do Tribunal de Contas, para mostrar como é que a saúde da cidade caiu em desgraça, com a presença de uma empresa “atravessadora” que teve o número de contratações ampliado, e cujos médicos não cumprem seus devidos horários de trabalho, entre outras irregularidades. O que está acontecendo na cidade é, em uma só palavra, criminoso.