Crianças utilizam latas de alimentos para fotografar de forma artesanal a realidade do bairro carente onde vivem | Foto: Jorge Aguiar / Arquivo Pessoal / OA

Há 15 anos, o fotojornalista Jorge Aguiar desenvolve projetos de inclusão social por meio da fotografia. Em 1997, a lata começou a ser o principal material utilizado por ele, para ensinar a jovens a arte de fotografar.  Nos últimos dez anos, mais de 500 crianças e adolescentes assistiram a palestras através do programa social Photo da Lata – Luz Reveladora.

O fotógrafo profissional realizou um rascunho simples para introduzir noções de ótica e luz e os fundamentos de sua arte não muito conhecida, o pinhole, que poderia ser traduzido como “buraco da agulha”. Técnica prática, econômica e simples que gera muita curiosidade nos jovens aprendizes, pois eles descobrem que é possível, com um mínimo de prática e materiais reciclados, captar imagens que podem descrever a realidade.

Esse projeto, que tem grande repercussão social nacional e internacional, deu a ele prêmios em 2003 pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, pela comissão dos direitos humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul e pela Unesco, como melhor projeto de divulgação dos direitos humanos no Estado. Jorge sempre gostou de participar de projetos de inclusão social em periferias, pois acredita se tratar de um povo sem voz, que é ignorado pela grande mídia.  “Minha história com a periferia começou nos anos 90, quando um menino me pediu para ser fotografado, pois necessitava de um retrato para obter sua carteira de identidade. Conversando com minha mulher, veio a ideia de mostrar quem são essas pessoas que são tão marginalizadas”, afirmou.

Latas são utilizadas no lugar de câmeras | Foto: Jorge Aguiar / Arquivo Pessoal / OA

Ao longo de toda a sua experiência, uma das coisas da qual também se orgulha muito é a criação do projeto fotográfico Umbu, junto com o fotojornalista Tadeu Vilani, que descreve com fotos o espaço conquistado pelas pessoas que, no passado, eram ocupantes, e hoje são moradoras do bairro que, em julho, comemora 25 anos.
“A periferia é interessante, as pessoas, tudo. É como eu sempre digo: periferia a gente não vive, a gente sente, ela entra na pele”, comentou.

Com as máquinas e lentes fotográficas e o olhar aguçado para os contrastes sociais como forma de aprendizado, percorreu, de janeiro a maio de 2011, ruas, becos e casas, captando mais de mil imagens das cenas dos moradores e fotografando o seu cotidiano em imagens monocromáticas. A escolha deste tipo de imagens deu-se pelo fato de a essência da foto em preto e branco ser o contraste e o tom, sendo uma das formas mais fascinante e inspiradora, expressando sentimentos e sensações. “O preto e branco tem uma mística muito forte. Tem trabalhos que ficam maravilhosos fotografados com cor, mas o meu perfil é periferia, a inclusão social e a forma que consigo mostrar a poesia de um morador é em preto e branco”, esclarece.

Essas obras fixadas em carcaças de televisão estão sendo expostas em Alvorada desde quinta-feira, dia 19. Segundo Jorge, a apresentação um pouco diferente tem como objetivo contrastar o que passa nas telinhas com o que acontece diariamente com as pessoas no Umbu, mesmo para aqueles que, ainda nos dias de hoje, não possuem uma televisão em suas casas.

A exposição pode ser conferida até 19 de maio, das 10h às 22h, de segunda a sábado, no Subtê Café.

 

Fonte: Fernanda Escouto / OA